Carlos e Sua Vingança- Douglas Joel
Carlos tinha 27 anos e trabalhava como açougueiro numa rede de supermercado de sua cidade, Delmiro Gouveia. Todo santo dia, pegava sua bicicleta e ia, sob o sol do meio dia, até aquele lugar, cumprir sua rotina.
"Quero chã de dentro, mas limpo", dizia-lhe uma senhora. "As costelas estão de quanto?", indagava um senhor barrigudo. E a todos, o moço, prestava informações com rigor e primor. Era sempre gentil, mesmo com a camisa branca manchada de sangue. Nunca faltara-lhe respeito e educação, sempre pontual e nunca fizera corpo mole.
Carlos, o açougueiro exemplar que adorava, além de limpar, cortar, fatiar, triturar. O cheiro do animal morto era, para ele, mais perfumado que mil donzelas. E ali, o jovem adulto, estava em casa. Sua vida se resumia àquele trabalho: dormia às 22h00, depois da novela e acordava às 05h00. Dava comida às suas galinhas, espalhava ração para os porcos, fritava os ovos com bacon, preparava o cuscuz.
Tudo seguia milimetricamente calculado, o moço era tenaz naquilo que se propunha e levava uma vida simples.
E, mais um dia, saia para sua rotina. O trabalho era pesado, mal-remunerado\ e, Carlos, sempre estava exausto. Contudo, cumpria sua função na empresa de forma religiosa. Estava lá desde os 19 anos e nunca se atrasou, faltou ou pôs um atestado. Era, de fato, um funcionário mais que exemplar: primoroso.
Certo dia, ouviu pelo rádio - pois não tinha dinheiro suficiente para uma TV - que o Brasil passava por uma recessão. Grandes empresas estavam fechando as portas, os investidores receosos e o Mercado agitado. Mas não entendia o que aquelas palavras significavam. Só sabia que, pela entonação da voz do radialista, aquilo não era nada bom. "Para que pensar nessas coisas? Do que vale a economia? Logo o novo presidente da um jeito, ele sim sabe o que faz!" Suspirava o rapaz, enquanto roçava o mato de seu quintal.
Certo dia, porém, mesmo chegando cedo, foi chamado no RH do supermercado. Durante todos aqueles anos nunca sequer tinha chegado perto daquela sala, branca e amórfica. Por um curto período, sentiu medo, mas seguiu o trabalho. A hora de se fazer presente era depois do almoço e, a cada segundo, deixava o moço mais aflito. Suas mãos suavam e um pavor começou a percorrer seu corpo. Talvez fosse um sinal.
"Carlos, nós admiramos seu comprometimento com a empresa durante todos esses anos." Disse a moça com voz e rosto angelical. "Mas mediante ao contexto que o país vive, precisamos fazer um corte de gastos." Ela prosseguia, enquanto mostrava a sua rescisão contratual. Pedira-lhe para assinar nas linhas marcas e disse que todos os direitos lhe seriam assegurados. E um misto de pânico e alívio atravessavam a alma do jovem.
E, recolhendo suas coisas, despedindo-se dos colegas, seguiu pela porta da frente indo de encontro com todas as possibilidades que o livre mercado oferece para um ser humano desempregado. Seguia segurando o choro e o grito que, por um instante, quase saía. Foi até sua casa, fez a mesma rotina e dormiu. Repetiu os processos da mesma forma metódica, com a mesma parcimônia. Até o dia querecebeu os encargos. Contou cada centavo.
Com o dinheiro, decidiu comprar materiais de açougueiro: facas, cutelos, garfos e ganchos. Comprou um celular com Internet. E pôs-se a navegar, queria entender o que era crise econômica e, logo, foi apresentado a teorias sociais críticas. Foi amor à primeira vista: as palavras soavam como um evangelho.
"O bom burguês é o burguês morto." Uma frase que não saiu de sua cabeça, tanto que a escreveu, em letras garrafais, na sua sala de estar. Seguia metódico, mas revoltado. Uma revolta individual: "eu desperdicei anos da minha vida para dar lucro àqueles porcos e fui descartado feito lixo!" Berrava, enquanto socava a parede.
Começou a matutar consigo mesmo, planejava se vingar, só não sabia como.
Enquanto isso, seu dinheiro ia se esfarelando, minguando aos poucos. Sobrara-lhe dinheiro para uma semana, depois disso ele teria que matar as galinhas e os porcos para comer. "Porcos! Isso! Porcos!" Gritava contente pulando por todo seu quintal.
Carlos acabou de ter uma ideia que mudaria significativamente sua vida e, claro, lhe daria sua vingança. Logo, prestou a ir, religiosamente, ao supermercado que trabalhava. Ficava mendigando enquanto anotava num caderno os horários de entrada e de saída de seus antigos patrões. Ninguém o reconheceu ou preferiram fingir que não o reconheciam. Seu olhar, mais que abatido, seguia desesperançoso, porém, em sua alma havia um certo furor.
Os dias passaram e com o papel em mãos, passou a estudar a rotina dos antigos patrões. "Às 20h00 eles saem do supermercado, andam por 7 minutos até o carro, demoram mais 3 minutos e vão embora. Onde o carro fica estacionado, as câmeras de segurança não tem visibilidade." Conversava consigo mesmo, enquanto gargalhava perante a frase de sua parede.
As semanas passaram e Carlos, já sem economias, matou todas suas galinhas e agora só lhe restava um porco. Ele precisava agir, do contrário, a fome bateria sua porta e, aquele velho fantasma, punha medo em qualquer um do alto sertão. E fazia um calor da peste e ele suava e delirava. Sonhava com seus planos e teria que, mais cedo ou mais tarde, pô-los em prática.
Numa sexta-feira, de lua cheia, pegou o martelo e o cutelo. Se escondeu atrás do lixo e ficou esperando, pacientemente, seus patrões saírem e caminharem até o carro. Ao avistá-los, não tardou em ir ao encontro deles. Por trás, deu o primeiro golpe: o velho caiu duro no chão se contorcendo. A velha pôs-se a gritar e Carlos, com seu cutelo, degolou a megera. O sangue escorria por seu corpo e ele ria. Colocou os corpos no porta-malas e deu partida na ignição: a chegada era sua casa.
Lá, tratou de limpar os corpos: tirou o couro, jogou fora as vísceras, ficando com fígado e coração. Fez cortes quase cirúrgicos naqueles corpos velhos e gordurosos. Mas com sua habilidade, adquirida nos anos de trabalho, fez lindas partes de carne. Guardou na geladeira e as cabeças, como um troféu, colocou sobre o guarda-roupa. Gostava de encará-los e tinha o sono dos anjos.
Alugou, então, um pequeno galpão, levou as carnes e fez promoção. Chamou um trio de forró para inauguração, foi um sucesso só. Todo mundo estava admirado com a carne exposta, era tão limpa e linda de se ver. E na fachada, com as mesmas letras de sua sala, estava escrito: O BOM BURGUÊS É O BURGUÊS MORTO.



Comentários
Postar um comentário