Origem Controlada- Cannubis
O dia nasceu sem pressa, como se a cidade tivesse desistido de acordar por completo. O céu era de um cinza lavado, chuva na ilha e a atmosfera se tornava cansada. As casas mesmo desalinhadas na ladeira de paralelepípedos pareciam iguais demais, muros baixos, portões rangendo, plantas encharcadas. Caleu bate a porta do carro com mais força do que o necessário, como se o som ajudasse a firmar o início do dia. Sentou, ajustou o retrovisor e ficou alguns segundos olhando o próprio reflexo. No banco do passageiro, papéis se acumulavam, planilhas, números, linhas que não diziam muita coisa fora do lugar certo. Ele puxou do bolso um papel dobrado, mal cortado nas bordas, e abriu com uma mão só, apoiando o volante com a outra: arroz óleo sabão carne Dobrou o papel novamente, e o deixou sobre o painel. O carro respondeu na segunda tentativa, com um ronco curto e cansado. O rádio ligou sozinho, chiado baixo, até que a estática cedeu lugar a uma voz clara demais para aqu...






