Teste Para Admissão- Luis Amorim
Acordara bastante sobressaltada a meio da madrugada, como
vinha sendo habitual, com imagens densamente nubladas e um
vulto alto por diante, mais do que pronto, dizia ele, para a
levar. No seguinte, vendo ninguém, começou a balbuciar sem
qualquer ordem de pensamentos, se alguém a ouvia, se ela já
teria passado ao outro lado e se aquilo seria puro e autêntico.
Então voltou a vê-lo, integralmente vestido de negro, mas com
um largo chapéu de semelhante tonalidade que lhe cobria por
completo as feições. Afirmou ter algo importante para lhe
mostrar, a conhecer início na porta à sua frente, da qual não se
recordava de tê-la visto antes. Entrou e no imediato começou a
ver diversas imagens nas paredes e até pelo chão de situações
provocadas por si no passado, as quais deixaram um rasto
visível de reprovação. Reparou, com mais atenção, que após
uma área onde atitudes suas estavam figuradas, logo a seguir
via as respectivas consequências espelhadas nas pessoas que
tanto prejudicara e caluniara, as quais pareciam que ainda
naquele dia preciso, muito refilavam, identificando-a apenas
como a pecadora Malélia. Apesar disso, arrependia-se de nada,
perante sonoras gargalhadas do indivíduo, adivinhando seus
pensamentos, assim mesmo conjecturou. Nova sucessão de
casos seus onde fora interveniente, paredes e chão apontando
em sua própria direcção, para no seguinte instante, mais dedos
acusadores que não a faziam sequer vacilar em prol do
arrependimento. E o caminho prosseguiu no idêntico sucessivo
registo até surgir porta outra, onde ele fez convite à passagem,
optando por não lhe fazer companhia, face à surpresa de
Malélia, diante ondas enormes que se estendiam até seu
horizonte fitado. Água levou-a sem pedir licença, nadando sem
rumo, mas por tempo pouco, saindo num poço em campo
sombrio, onde uma luz distante era bem perceptível. Ficou
contente por ver aquele brilho, sentindo-se reforçada na
iluminação depois do enorme agrado que fora tanta recordação
vivenciada de suas distantes façanhas. Uma rapariga, vestida
toda de vermelho e com aparência ciclópica, surgiu e pegou-lhe
na mão, encaminhando-se as duas em par na direcção da
brilhante luz ou talvez farol, também idealizou como incerta
possibilidade. Ficou parada por um curto instante, pensando ser
aquele viajar um teste para sua admissão, se ela aguentaria ou
não, uma tão longa viagem, no mais do que óbvio, esperada,
quando realmente acreditava que todo o seu passado, suficiente
e muito seria para não ter de passar em testes alguns. Mas sua
mão foi puxada com mais força, pois ainda havia caminho
adicional a percorrer. A imagem das ondas ainda a rodeava tal
como as vistas no antes, sorrindo das reflectivas paredes e de
tão amplo chão. Estava realmente absorvida pelas recordações
como se nada adicional existisse que nem deu conta do acesso
final, onde a tal luz ainda mais brilhante, afinal era uma
passagem nova para ser transposta, com ferrugento portão de
espantadas dimensões e rapariga de vermelho entregando-a ao
estranho vulto conhecido no início da sua jornada, por certo
que seria ele. Quando riu de forma tenebrosa, imediata certeza
teve de ser ele mesmo, naquele instante convidando-a pela
entrada no sentido de finalmente poder ir ao destino encontro,
por justo descanso e eventualmente dormir. Ainda pensou ela
no perguntar, se teria passado no teste para ser admitida, mas
não foi necessário, ele percebera, rindo novamente, quando a
viajante enfim sentia-se livre. Procurou com o olhar em redor a
sua companhia recente, mas tinha desaparecido a jovem de
vermelho, só restando aquele deveras estranho sujeito como
interlocutor, fazendo de pronto um convite irrecusável para
entrar, pois seria a primeira com a tão curiosa qualidade, no
entender dele, mostrando como prova credível um relatório
inacreditavelmente extenso com todos os pecados de Malélia,
sem excepções, em possuir o pleno nos ditos por os capitais,
inclusive o talvez oitavo, diversas vezes esquecido, o tal que
agrupava os alternativos actos de coscuvilhar, intrigas,
bisbilhotice, mexericos, boatos e mentiras. Portanto, em caso
algum, nunca poderia ela ficar ausente daquele espaço para
onde iria aceder e onde já visualizava grandes labaredas
adornando a paisagem lateral, quais paredes sem outras
imagens passadas. Pensou que finalmente poderia dormir, mas
o tenebroso vulto ainda por ali estava, garantindo que aquela
seria doravante, não apenas a sua nova mas igualmente, eterna
casa.



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