Alma penada- Rodrigo Leonardi

 



Eu fui morto a tiros cerca de três anos atrás. Vítima de bala perdida.

Custei a acreditar que estava morto, pois não me sentia assim, ainda vagava nesse plano sempre a noite, com uma culpa dentro de mim que nunca ia embora. Ficava sempre na esquina perto de onde morava, encostado em um poste do lado onde não se pega luz. Não sei porque, mas sempre ficava ali. Todas as pessoas que passavam por ali, eu cumprimentava com um olá. Elas se assustavam e saiam correndo. Acredito que elas não me enxergavam, apenas escutavam meu cumprimento. Quando realmente soube que estava morto e o motivo que me levou a óbito, fiquei em fúria.

Não aceitava a morte, não gostava da ideia. A raiva tomou conta de mim por algum tempo, e assim realmente assustava as pessoas naquela esquina, me escondendo atrás do poste. Algumas passavam por lá dizendo que já tinha me visto, outras procuravam uma explicação lógica para o olá que eu dava. Percebi também, que meu olá apenas soava como cumprimento para mim, para as pessoas que ali passavam, soava como um ruído atormentador.

Minha alma estava ali, amenas ali. Naquela esquina, embaixo daquele poste. Talvez fora ali que tivesse morrido, não sei dizer ao certo pois, depois que se morre muitas coisas se perdem. Suas lembranças ficam rasas e você fica em estado letárgico, quase que em transe.

Me confortava com a solidão, na verdade eu gostava. Não tinha proposito algum, apenas me divertir fazendo assim com que meu ódio por ter morrido fosse embora, mesmo que momentaneamente.

Foram noites divertidas assustando casais de namorados e outras pessoas que por ali passavam.

Começo a perceber que ser uma alma penada é mais divertido que estar vivo, pego gosto e me entrego sem limites na arte de assustar. É isso que fazemos, é o nosso propósito. Assustar as pessoas

Como tudo, assustar começa a ficar chato. Muitas pessoas desviavam daquela esquina por medo de mim.

Fazia dias que não passava mais ninguém por ali, estava um tedio.

Depois de algum tempo sem pessoas para me divertir, comecei a pensar em como sair dali, em como ir embora. Sabia que almas penadas não eram pra estar nesse plano, sabia que algum dia ia ter que ir embora pra outros cantos.

Enfim, uma moça se aproximando da esquina. Pensei em assustar, pois era o que eu sabia fazer de melhor.

Quanto mais ela se aproximava, mais eu preparava meu olá.

Enfim, quando ela chegou bem próximo da esquina, eu soltei o meu cumprimento.

``Olá``.

Ela parou assustada. Forcou as vistas e me encarou nos olhos.

Parecia que ela estava me vendo. Deu um sorriso e retribuiu o olá.

Me escondi o máximo que pude atrás do poste. O medo se voltou contra mim.

Ela disse que estava me vendo, cantarolando a frase, ironicamente.

Eu sai de trás do poste, tremendo.

Ela se aproximou, pegou em minha mão. Conseguiu ter o contato físico que há tempos não tinha. Fiquei espantado.

Começou a caminhar, sem saber como, comecei a flutuar ao seu lado.

Ela andava a passos firmes, mas nunca tirava os olhos de mim. Chegamos em sua casa.

Ela ainda de mãos atadas comigo, me levou para um cômodo no fundo.

Abriu a porta e me colocou lá. Fechou a porta.

Quando percebi, ruídos de olá por todo lado. A escuridão do quarto de repente se iluminou com algo que não sabia o que era.

Percebi que tinha varias almas penadas ali. Muitas, muitas, muitas...

Se fosse dizer realmente, tinha mais do que o quarto suportava.

Percebi que estávamos ali para partirmos para outro plano. Percebi que a mulher devia ser algum agente celeste ou coisa assim.

Estava pronto para ir embora. Confesso que ainda queria assustar mais algumas pessoas.

Enfim, chegou a hora de partir...


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