Antônio e seu caroço- Douglas Joel
Certo dia, Antônio acordou exausto, após uma noite de sono, ímpio e taciturno. Abriu os olhos lentamente e, ao avistar o teto e as paredes de seu quarto, notara que havia algo diferente. Pensava consigo mesmo, "algo está errado, porém tudo continua exatamente igual". E, já sem força, levantou-se e foi até seu banheiro. Escovou os dentes com a mesma parcimônia, urinou o mesmo amarelo ouro, apertou a descarga, lavou as mãos e o rosto com o mesmo sabonete barato. Enxugou-se e seguiu, meio curvado, em direção a cozinha.
Na cozinha, pôs água na chaleira e foi preparar seu pão caseiro com geleia, também caseira. Seu corpo estava pesado e, sentou-se, suas pernas já não o aguentavam. Logo a chaleira fez soar seu apito. Com um pouco de resiliência, Antônio levantou-se da cadeira e passou seu café. "O café da manhã é a refeição mais importante do dia, creio que depois dele estarei me sentindo bem melhor", pensava o jovem adulto, enquanto saboreava, vagarosamente, seu pão.
Após a refeição, dirigiu-se mais uma vez ao quarto. Tirou o pijama e foi ao banheiro tomar seu banho matinal, indo preparar-se para sua rotina. No banho, já sem roupa, enquanto ensaboava-se, notou algo incomum: um caroço, quase imperceptível, em seu antebraço direito, próximo do cotovelo. Abismado com aquele novo ser que nascera ao acaso em seu corpo, Antônio o tocou, mas não doeu. O analisou, espremeu, beliscou, apalpou: nada parecia acontecer.
Tendo superado tal acontecimento, o moço pôs-se a vestir, estava alguns minutos atrasado para seu trabalho, o caroço roubara-lhe seu precioso tempo. Vestido, foi caminhando até o banco em que trabalhava, pois era próximo de sua residência. Seu trajeto era sempre o mesmo: seguia reto e logo estaria lá. Ao fazer seu caminho, porém, Antônio passou a reparar no ambiente que o cercava. Tudo parecia diferente, tudo parecia estranho. Ele não reconhecia mais aquela rua; os transeuntes pareciam uns iguais aos outros, vestidos com, além de seus trajes habituais, máscaras.
Apesar de ser um percurso relativamente curto, ao se aproximar do banco, Antônio se viu extremamente cansado. Ofegante, entrou na agência bancária. Após sentar em sua escrivaninha e ligar o microcomputador, seus colegas de trabalho disseram que algo de errado havia com o moço. Contudo, não identificavam o que era. O dia foi cheio, longos atendimentos que não cessaram. E, já no final do expediente, uma de suas colegas exclamou: "Um caroço!". E Antônio, sem jeito, abaixou a blusa social no intuito de esconder aquela coisa abjeta do olhar dos demais.
Em sua residência, procurou, no folheto do plano de saúde, um dermatologista. Encontrado o número, pôs-se a marcar a consulta. Aconteceria em dois dias, contudo, a espera tornou a vida de Antônio um verdadeiro purgatório de ansiedade e aflição. Durante esses dois dias, o rapaz notou que o caroço havia se multiplicado de tamanho, ou talvez tenha sido uma má impressão de uma mente que, há muito, estava inquieta e cansada.
O dia da consulta logo chegou e Antônio arrumou-se de forma desleixada. Seguiu até o consultório caminhando, chegando lá antes da hora marcada. Seu corpo estava pesado e andava curvado, como quem carregava o peso do mundo. "Bom dia, sou Angélica, o que trouxe você aqui? Pode sentar na cadeira e tirar a blusa, vamos fazer uma análise parcial." Logo, após mostrar-lhe o caroço, a dermatologista analisou e concluiu que não deveria se preocupar, pois, com um pequeno procedimento cirúrgico, o caroço logo deixaria de existir. E sugeriu a cirurgia para semana subsequente.
Antônio foi para casa um pouco aliviado. Todavia, ao acordar na manhã seguinte, o caroço estava maior, desta vez do tamanho de uma laranja. E, paralelo a isso, suas energias eram cada vez menores. Não tinha força para levantar da cama. Mal conseguiu pegar seu telefone e, com a força que lhe restava, avisou a sua gerente que não estava se sentindo bem e que faltaria ao trabalho naquele dia.
Os dias se seguiram, o caroço crescia e Antônio diminuía. Já não tomava banho, ou preparava seu café. Seguia mesmo era deitado, olhando para o teto e mexendo no grânulo. Este já era do tamanho de um pequeno melão. Continuava sem doer, não incomodava, a não ser esteticamente. Já não se importava com a estética e seguia como um estranho dentro de seu quarto. A única coisa familiar era o caroço.
Chegou o dia da cirurgia e Antônio recebia insistentes ligações do consultório médico, fazendo questão de não atendê-las. Para o moço, o caroço era tudo que lhe restava. Fazendo parte dele - agora do tamanho de uma melancia -, o edema era a única coisa real em sua vida. E quanto mais crescia, mais o rapaz se apagava. Os dias se transformaram em semanas, semanas em meses e meses em anos. E ninguém ouviu falar de Antônio.
Com o passar do tempo, os vizinhos ficaram preocupados, pois o rapaz não aparecia na rua há algum tempo e, de sua casa, emanava mais que uma névoa negra, mas também exalava um odor insuportável de putrefação. Ligaram para polícia e, depois de duas horas, os oficiais chegaram. Tocaram, deste modo, o interfone e ninguém respondia. Tiveram que arrombar a porta. Andaram por todos os cômodos e, ao chegar no quarto, só encontraram um caroço do tamanho de uma grande bola. Antônio havia desaparecido, o caroço o engoliu.



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