Concerto em Dor Maior- Pancho Belo Romariz
PRIMEIRO ATO — A ENTREGA
O maestro dos meus dedos tateia o primeiro som.
A dúvida, em sombra afinada:
— Tragédia?
Tragédia ou espetáculo?
A plateia respira sob a mesma máscara
O arco rasga,
E o sangue vira ritmo.
Convoca-me o Instinto
— Ouça!
Ouço.
— Dance!
E danço no fio do abismo.
Nada é tão sublime quanto o risco
— Da percepção
Da loucura?
— Da premonição.
Mesmo ferido, escuto:
A Valsa Macabra,
O corpo dissonante da mente
A lucidez em degraus estreitos
Onde me apoio por milagre.
— A queda redime!
Em marcato as notas
Rispam minha carne
— Erga a batuta. Termine!
...
O som morre.
O vazio respira.
SEGUNDO ATO — A CALMARIA
A criação: um sopro dito
Fiat Umbra
Um acorde que funda-mundos.
— Ouve?
O ritmo estremece no medo
O pavor tem contrabaixo grave
— O medo da vida...
Um forte sem aplauso
A percussão acompanha meus passos
Sem-bravo
— Espera bravos!?
O gesto da batuta suaviza o tempo
— Agora.
Dois movimentos se enlaçam
O fim e o começo partilham bordas
— A ponte separa...
O solista improvisa
As máscaras caem
A plateia ascende os olhos
— e aproxima demais...
O palco respira luz lenta
O musical se torna manso,
Silêncio gestado.
— A nossa solidão.
O recém-nascido chora o primeiro som
Depois, esquecemo-nos dele
Não gritamos
Não pedimos colo
Apenas instrumentos cortantes
Compõem nosso berço.
O fagote se desfaz
O final, sem recordação
Con sordini
Ainda crê.
TERCEIRO ATO — O SILÊNCIO
Ouça
o que destrói
e tritura.
É o coro final:
— O silêncio revela.
O canto do Outro
É o vazio que carrego,
Então para que ouvi-lo?
— Resta ser o que se é.
O que é Você?
A plateia se rende ao cansaço.
Eu também.
A peça termina em exaustão
Como tudo o que fiz.
Mas as luzes fecham
Há nós dois
Enquanto cai a cortina
O espetáculo cessa.
O corpo é o último instrumento.
†



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