REC- Cannubis
Se o nosso mundo fosse um globo de neve, aquele foi o dia em que algum deus do caos o sacudiu com força.
Quando a espuma e os flocos assentaram, nada voltou ao lugar.
O envelope em minhas mãos não pesa muito, mas corta como vidro. Não reconheço a caligrafia. Hoje, aliás, mal reconheço a minha própria, culpa dos remédios ou do regime das telas sensíveis ao toque.
“Para Agenor.”
É meu nome. Ou pelo menos o nome que cabe na ficha.
Envelope pardo, estéril como tudo neste lugar. Dentro, um laudo médico, letras em negrito: TRANSTORNO DISSOCIATIVO DE IDENTIDADE (TDI).
Aqui, visitas afetivas não existem.
Só o desfile calculado de enfermeiras trazendo bandejas com doses de Gambutrol,
Trifluorperazina, Loxapina, Molindona…
Quanto mais variam os remédios, mais rápido as personalidades alternam entre si.
Ninguém fica esquecido.
Vivemos em revezamento. Uma dança de máscaras que nunca para. Cada personalidade ocupa seu turno, deixa sua marca e desaparece, sem um padrão claro.
O que incomoda é que nosso bem mais precioso foi roubado, a liberdade.
Essa caixinha de algodão é uma prisão por tempo indeterminado. Querem um culpado para um crime.
O problema é que talvez todos sejamos culpados ou talvez ninguém seja. É difícil enforcar uma multidão quando ela vive dentro do mesmo corpo.
Sozinho, tempo para as recordações não falta.
Lembro do barulho seco da porta se abrindo. O coração explodindo no peito, o corpo pronto para o impacto já esperando o caos da minha sala virada do avesso como quase sempre naqueles dias.
Mas, a sala intacta, limpa, tão meticulosamente recomposta que parecia uma foto antiga trouxe uma frustração estranha.
Como se a ordem fosse, de algum modo, mais perturbadora que a bagunça.
A sanidade de todos nós já tinha escorrido por aquele ralo. E nada, nem o padrão da organização compulsiva dos pertences de minha sala, parecia suficiente para deter a desordem dos meus pensamentos.
As memórias chegam quebradas como fragmentos de um filme danificado pelo tempo.
Uma faca. Um martelo. Passos úmidos ecoando no linóleo...
Cada imagem se dissolve antes que eu possa agarrá-la. Escorre entre mim e os outros.
A culpa não tem um rosto. Não tem um nome.
Essa colcha tem nove retalhos. Cada uma com seu roteiro perfeito. Nenhuma com autonomia o bastante para mudar o que já aconteceu.
A execução do crime perfeito existe apenas na penumbra dessas nove possibilidades. E na frustração que gruda nos 18 pares de mãos psíquicas.
Pensar assim agora é como achar a peça que faltava em algo que eu nem sabia estar incompleto.
Os períodos em que perco a consciência e desperto sem saber o que aconteceu. O tempo devorado por um vazio que mastiga lento.
Para mim, revisitar o que aconteceu é um vício, um privilégio cruel, como quem assiste ao próprio desespero em replay, descobrindo detalhes inéditos.
Os passos no linóleo me puxam para estas lembranças. O martelo. O sangue já seco, mas ainda vivo na memória de alguém que também sou eu.
Ninguém fala sobre isso, mas todos guardam a sensação de ter feito.
Uma risada curta me atravessa: é a dela, impaciente, sensual, desprezando o drama.
Não é uma presença ruim, mas nunca chega sozinha... é sinal de que o efeito da última droga já começa a se dissipar.
Logo a porta vai se abrir.
Não há relógio. Só o instinto predador das mudanças sutis.
Vejo a enfermeira antes mesmo dela cruzar a porta. O gosto ferroso se instala na minha língua.
A maçaneta gira.
Ela entra com passos silenciosos, olhar neutro. Nas mãos, segura algo com cuidado: a Canon.
"Acho que chegou a hora de rever algumas cenas, Agenor..." Ela diz com a voz baixa, ensaiada.
O objeto em suas mãos é leve, mas pesado como confessionário.
Ela sabe, o momento pertence a mim.
Play Rec° --
Os últimos reflexos do sol daquela tarde no chão, meu rosto inexpressivo e minha sala semi encaixotada, tudo capturado na tela da câmera, que me observa.
Batidas na porta. Secas. Urgentes.
Meu vizinho mr. Robinson olha automaticamente para a câmera em minhas mãos antes mesmo de olhar para o meu rosto.
"Alguma coisa está errada com minha correspondência. Semana que vem é meu aniversário e há entregas importantes..."
Os olhos de Robinson se estreitam, sondando cada canto da sala como se suspeitasse que algo vivo se movia nas sombras.
"Alguém está mexendo nas minhas coisas," acrescenta, e a voz carrega uma frieza cortante, quase venenosa.
A câmera em minhas mãos treme levemente, registrando tudo: o medo, a suspeita...
Robinson empurra a porta, entrando na sala. Seus olhos percorrem o chão, as caixas, o deus hindu com cabeça de elefante.
Ele se aproxima da mesa, pega uma das cartas e ergue a sobrancelha.
Não diz uma palavra mas sua expressão ecoa por dentro de mim, atravessando cada fragmento, cada retalho. A raiva, o medo, a curiosidade... tudo junto, sem controle.
"Um momento," digo como se escapulisse da minha boca, a voz saindo como um sussurro de múltiplas camadas.
Cada personalidade em mim hesita, se retira, observa.
A câmera pousa sobre a mesa e Robinson murmura algo que o microfone da câmera não consegue captar.
Minha caixa de ferramentas está na mesa junto as correspondências. Minhas mãos alcançam seu interior, o mundo se dobra.
O martelo está lá, frio, pesado. As consciências dentro de mim se unem por um instante e todas me empurram.
O martelo ergue-se, devagar, cruel.
O olhar de Robinson trava no meu em um instante interminável. Ele ainda pensa em suspeita, em perdas, em pequenas injustiças.
Não sente o que vem.
O impacto seco rasga o silêncio. Um som que reverbera no chão, nas paredes, no ar.
Meu corpo, ou o corpo que eu divido, reage em camadas: horror, prazer, alívio, vazio. O cheiro metálico explode, mistura-se ao suor, à saliva, à vida que se dissolve.
Robinson cai.
O chão engole sua confusão, seu corpo, sua incredulidade.
A câmera lambe a cena de forma deliciosa e então capta uma mudança sútil na atmosfera.
Minha postura rígida se desfaz por segundos, não há olhos revirados ou mudança na voz. Apenas a minha expressão torna-se mais escura, mais dura, mais fria.
O mundo treme sob nossos pés, mas a câmera não.
Ela apenas observa.
Então uma calmaria surge.
Falsa.
Um silêncio pesado que esmagaria qualquer sanidade. Ninguém se move, ninguém respira, mas todas as vozes estão lá, observando, avaliando, sussurrando.
Eu começo a perceber o fio tênue entre mim e os outros, entre mim e o horror que criamos.
Ouço o som dos meus passos arrastados em direção a cozinha. Vejo na tela minhas mãos vasculharem a gaveta de facas, as lâminas deslizam entre meus dedos, frias, prontas.
O martelo ainda vibra na minha palma, um lembrete do controle absoluto a situação.
E ao voltar ouço o arranhar de lâmina na carne, um metrônomo das múltiplas vozes dentro de mim.
Um braço se separa do corpo primeiro.
Sinto a resistência da articulação, o som seco da ruptura ecoa, misturado com o bater da minha própria pulsação acelerada.
Sua roupa agora não esbanja a pompa da logo da grife, a nova estampa lhe cai melhor.
As pernas, a cabeça, as mãos, cada membro separado, cada órgão exposto, cada gesto de Robinson interrompido pela inevitabilidade do fim.
Um espetáculo, frame a frame.
Trocamos de lugar, Robinson é um inventário de órgãos. Retalhado. Fragmentado. Um retrato do que sou psiquicamente.
Nove pedaços de um mesmo ser.
Entre dois filetes de sangue que escorrem na lente da câmera, observo a leve mudança ocorrer novamente.
Meus ombros relaxam, meu maxilar travado se solta, os olhos escuros em tom de grafite se tornam brandos e chegam a tornar-se mais claros.
Até mesmo meus movimentos se tornam mais fluidos.
Facilitam o processo de encaixotar os pedaços de Robinson em uma caixa larga de papelão.
Play Rec° --
A gravação finaliza sem que a enfermeira perceba e o quarto permanece em silêncio absoluto.
O branco das paredes funde-se com o peso do momento.
Apertar o Rec novamente é instintivo. O olho da Canon se abre, vigilante, cúmplice.
A enfermeira abre a boca.
O som não sai só a intenção permanece. As palavras dela se quebram quando minhas mãos se fecham em volta de seu pescoço.
A câmera registra o bote. Carne contra carne, calor contra calor.
O choque em seus olhos é instantâneo, um clarão de incredulidade antes que o desespero se instale.
Os joelhos arranham o chão, num ritmo frenético.
As veias do rosto tornam-se desenhos azuis e vermelhos, e os olhos giram, perdendo-se nas órbitas.
Meu próprio coração bate com uma força quase desumana, sentindo cada pulsação como se fosse o limite da minha própria vida.
Observo novamente seus olhos, só que mais de perto. Tão perto que consigo sentir o cheiro do chiclete de cereja que mascava.
As nove consciências focadas em uma única ação: apertar.
Ranjo os dentes em uma última força.
Então deixo seu corpo escorrer por minhas mãos a medida que meu membro lateja em êxtase dentro da calça.
A vida daquela mulher escapa para fora do corpo por seus orifícios a medida que faço a minha vida valer a pena num orgasmo violento.
O corpo dela pesa no chão acolchoado e meus olhos alcançam a maçaneta da porta. Aberta.
As portas se fecham com batidas metálicas atrás de mim.
Meu passo muda. Todos os pelos de meu corpo se eriçam. Meus cílios tremulam levemente. Cada movimento agora é preciso, calculado, sem hesitação.
O zumbido distante do hospital se mistura aos meus pensamentos.
Enfermeiras, a rotina dos corredores, alarmes inexistentes, tudo um risco constante.
Mas a Canon ainda grava, pulsando na minha mão, a lente vermelha me lembrando que cada passo está registrado.
As vozes se misturam em sussurros, instruindo, puxando, gritando.
Um corredor se alonga, a luz fluorescente pisca.
O hospital inteiro é labirinto, armadilha e teste, e eu sou o predador e a presa ao mesmo tempo.
Ao alcançar a luz do sol, procuro o melhor caminho de volta para casa. Preciso terminar de encaixotar para a mudança.
O hospital se dissolve ao redor, corredores e portas desaparecem, e a mente fixa-se apenas na sala de caixas, cada envelope, cada objeto, cada fragmento precisando voltar ao lugar exato.



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