Na Casa da Vovó - Tauã Lima Verdan
A casa está pequena. A casa está estranhamente pequena. Lembro-me com tanta saudade de como corria pelos corredores, pelas escadas e pelo jardim florido. A casa da vovó era tão especial. Um refúgio em que pude crescer, desenvolver e onde tive sonhos tão ingênuos. Lembro-me com muita saudade da voz carinhosa, acolhedora e incentivadora de minha querida avó. Já faz uns cinco anos que não consegui ir até sua casa, mas, mesmo assim, pelo menos uma vez por semana, por telefone, nós conversávamos, pedia seus conselhos e matava a saudade dela. A notícia de seu falecimento surpreendeu a todos nós. Eu, que havia me afastado um pouco da família, fiquei especialmente devastado com aquela notícia. Não poder mais ouvir sua voz, as palavras que tanto me entusiasmavam e, às vezes, quando ligava chorando e podia ouvir aquele reconforto.
A pedido de minha mãe, fomos a sua casa para poder embalar algumas coisas para doação e outras para repartimos entre nós. A primeira impressão, depois de cinco anos, é que a casa parecia maior. As janelas branquinhas estavam meio amareladas e a grama parecia mais alta do que de costume. Vovó detestava a grama alta, pois dizia que não era uma boa impressão para uma casa acolhedora. A calçada que havia até a casa estava repleta de folhas secas e a grama já brotava por entre as frestas do cimento partido. Ainda assim, as violetas estavam floridas e todas ornamentavam a mureta em torno da casa. Eram tantas violetas e de tantas cores que pareciam estar congeladas no tempo.
Naquela época do ano, a árvore de manacá sempre estava florida. Então, de repente, vi-me correndo em direção a ela. Lá estava o pé de manacá. Com as flores rochas em seus galhos e um tapete de pétalas em sua base. Vovó sabia que eu era apaixonado pelo pé de manacá e ela dizia sempre que aquela árvore era minha. Era a lembrança que ela guardava de mim, mesmo quando eu estava longe. Olhei para o lado, as duas jabuticabeiras estavam repletas de frutas. Peguei algumas e coloquei na boca. Como eram doces aquelas frutas. Tinham o gosto da minha infância, tinham o gosto da minha segurança. Lembravam a minha vó.
O quintal, que sempre pareceu tão gigante, estava especialmente pequeno. Além das jabuticabeiras, ainda via a pitangueira que eu plantei e a laranjeira. Haviam tantas outras flores perdidas naquele pequeno espaço. Sentei-me no chão e fiquei admirando como minha vó cuidava daquele universo. Tudo tinha seu toque. Tudo tinha sua mão cuidadosa e seu respeito a ida. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas e senti algumas rolarem pela minha face. Pela eternidade de alguns poucos minutos, meus olhos ficaram passeando pela extensão daquele lugar até que fitei a janela do quarto em que minha avó dormia. Confesso que, mesmo olhando de relance, tive a nítida impressão de ver alguém se movendo dentro daquele quarto. Podia ser apenas um relance e uma peça que minha mente pregava em mim.
Quando adentramos na casa, era impactante ainda sentir o cheiro da minha vó em toda a casa. O armário de porcelana meticulosamente arrumadas. Os bibelôs espalhados por toda a sala. Pude ver muitos que eu mesmo dera, quando de minhas viagens pelo Brasil e pelo exterior. O álbum de recortes que nós tínhamos construído com receitas de comida, retirados dos jornais da região. O caderninho de poemas feito a mão por ela, verso por verso. Uma saudade sem fim preencheu meu coração.
Minha mãe, disse-me que passaríamos a noite na casa da minha vó, pois precisaríamos analisar tudo com muita calam. Separar as roupas para doação, dividir as miudezas entre os demais filhos, que chegariam no dia seguinte e ver se havia alguma pendência a ser resolvida. Eu, de pronto, assenti com os pedidos de minha mãe, pois sabia como aquele momento era difícil. Minha mãe foi até a cozinha para “passar” um café para nós, no tradicional coador de pano da vovó. Segundo minha vó, o café ficava muito melhor e não tinha o gosto artificial daqueles que eram feitos em filtros de papel ou cafeteiras elétricas. No andar de cima, pude ouvir algo que se parecia com alguns passos, mas logo estranhei, pois só estávamos eu e minha mãe na casa. Às vezes, era apenas uma impressão misturada com a saudade.
Começamos a separar algumas coisas e encontramos o álbum da família. Vovó dizia que era o bem mais precioso que possuíamos, pois guardavam as lembranças de todos os integrantes da família. Reunia os bons momentos em que estávamos juntos e que compartilhávamos o verdadeiro espírito de família. Ficamos horas a fio vendo cada uma das páginas e minha mãe me contando algumas estórias, narrando com detalhes as experiências que ela e os irmãos tinham naquelas fotos. Era bom ver mamãe se ocupando com alguma coisa e, mesmo que por pouco tempo, esquecendo a tristeza de ter perdido de maneira tão repentina sua mãe. Novamente, pude ouvir passos no andar de cima e cheguei a questionar se minha mãe também ouvira, o que ela respondeu negativo e disse que deveria ser impressa minha.
Em meio às fotos, uma tinha me chamado especial atenção. Era de um homem magro, esquálido, olhos profundos, lábios finos e de feição dura. Questionando quem era, minha mãe respondeu a mim que se tratava do irmão mais velho de vovó e que tinha morrido de maneira trágica, tirando sua própria vida. Minha mãe disse que não chegou a conhece-lo, mas sabia que ele tinha se matado no quintal, tomando veneno em um acesso de desespero. Mamãe disse-me, ainda, que vovó não gostava de falar nele nem da forma que ela teria morrido, pois, segundo vovó, aqueles que se matavam não tinham paz no pós-morte e ficavam vagando perdidamente neste mundo. Por mais uma vez, pude ouvir os passos no pavimento superior e, dessa vez, tive a vívida impressão que desciam às escadas em nossa direção.
A noite caiu e senti que a casa estava especialmente fria. Não me recordava, aliás, da casa ser tão fria, quando a frequentava. Isso era um pouco estranho. A casa não tinha mais a receptividade que minha vó sempre possuiu, terna e generosa. Os cômodos do nível superior estavam frios e estranhos. Em nada, faziam-me lembrar aqueles espaços esperançosos e quentes que nos acomodavam quando vovó estava viva. Havia algo estranho em todo o ambiente. Na verdade, o ambiente estava espectral e sufocante, transpassando a sensação que algo ruim estava prestes a acontecer.
Naquela noite, resolvi dormir no quarto que sempre ocupava, quando criança. Ele ficava ao lado do quarto da minha avó. Tinha uma vista especial para o quintal. Contudo, naquela noite, quando sentei próximo à janela, para admirar a vista especial da minha infância, o ambiente estava muito diferente. Havia uma sensação de pânico no ar. Não reconheci o quintal. Apesar de saber onde ficava cada uma das árvores e das flores tão amadas de minha vó, quando olhei pela janela, a paisagem estava diferente. Parecia medonha, espectral, aterrorizante. Mal conseguia ver a árvore de manacá e as jabuticabeiras. Na verdade, as árvores formavam silhuetas que lembravam mulheres decrépitas a se arrastarem pelo chão. O meu coração congelou e senti um arrepio percorrer meu corpo.
Afastando-me da janela, decidi tomar um banho e descansar, pois, todo o estresse do falecimento de minha vó estava afetando-me, fazendo com que minha mente criasse cenários demoníacos e espectrais onde nada havia. Após, tomar o banho e deitar, pude perceber, enquanto olhava para o ambiente do quarto, que mais sombras se formavam. De um lado, via uma sombra que parecia um lobo do inferno com a boca aberta, do outro, um homem que se suicidara. Pensei: “será que essa não seria a figura do irmão mais velho da minha vó que teria se suicidado?”. Novamente, minha mente estava criando cenários e inventando imagens. Acabei adormecendo em razão do cansaço e do estresse dos últimos dias.
Por volta das três da madrugada, acordei com passos arrastados. Cheguei, em um primeiro momento, pensar que seria minha mãe andando pelo corredor. Levantei para ver se ela precisava de alguma coisa. Ao abrir a porta do quarto, não havia ninguém. Continuava, porém, ao ouvir os passos. Fui até o quarto em que minha mãe descansava e vi que ela estava dormindo. Os passos, contudo, não cessavam. Era nítido ouvir o caminhar de alguém pela casa. Senti um arrepio percorrer o meu corpo e um suor frio escorrer por minha testa. Havia algo de muito errado naquilo tudo.
Os passos continuavam em direção à escada. Um a um, os passos foram descendo os degraus. A madeira rangia em razão do peso do corpo que descia a escada. Presenciar aquilo me causava um medo irracional. Minha curiosidade se misturava com o medo. Eu continuei, de maneira sorrateira, a seguir os passos que eu ouvia. Apesar de nada poder ver, sabia que os passos estavam à minha frente. Um frio espectral inundou o corredor em que eu me encontrara. Tive a impressão de ouvir uma conversa acalorada na cozinha, contudo não havia ninguém na cozinha. Passos... conversas acaloradas... o que estava acontecendo? O medo que me invadia indicava que eu deveria fugir dali, mas minha curiosidade mandava que eu ficasse e testemunhasse o que se seguiria.
Ao chegar na cozinha, pude ver duas silhuetas humanas discutindo. Uma me lembrava minha vó quando jovem, os olhos brilhantes, o cabelo preto solto, a boca volumosa e o vestido florido. Havia uma foto dela assim?! Eu tinha visto uma foto dela no álbum daquela forma. Mas não era possível. A outra... meu Deus, a outra era a silhueta daquele homem... estava ali, parado na minha frente... aquela imagem demoníaca, gesticulava e parecia gritar... era uma figura enviada do mais profundo abismo do inferno. Um pânico desmedido tomou-me por inteiro.
Apesar de presenciar aquela cena, não consegui identificar do que falavam. Apenas algumas palavras soltas, desconexas. “Pacto”, “desespero”, “atormentado”, “eles vão me pegar”. Para mim, não fazia muito sentido. Minha razão questionava o que poderia ser tudo aquilo? Um vento frio invadiu o ambiente e a porta se abriu... o quintal estava envolto em uma névoa sem fim e aquela figura, em disparada, escapava da cozinha em direção ao quintal. A mim, pareceu que ele fugia do próprio Diabo, tamanha era a expressão de pânico que podia ver em seus olhos. Era inacreditável tudo aquilo.
Ao alcançar o quintal, vi aquela figura estender as mãos para o céu em súplica. A expressão de pânico só aumentava. Ao olhar de relance, vi que aquela mulher, agora compreendendo que era minha vó mais jovem, detinha em suas mãos um terço que segurava com força. Pude, enfim, perceber o que o homem tanta gritava em direção aos céus. Ele implorava por socorro, por ajuda! O vento frio que soprava, fazendo com que as árvores se envergassem, parou! Um silêncio medonho invadiu o espaço, sendo rompido apenas pelos gritos de socorro daquele homem. Vê-lo implorar por salvação, diante dos meus olhos, causou-me compaixão, que se misturava com o pânico que já me invadia.
Apontando em direção à lateral da casa, aquele homem urrava de desespero e questionava à minha vó se ela não conseguia ver o próprio Diabo ali. Lágrimas rolavam pelo rosto do homem e minha vó parecia paralisada diante de toda aquela cena que se desenrolava. O homem tentou levantar, esboçar uma reação, correr..., porém, as pernas não respondiam. Ele não conseguia sequer se levantar.
Uma figura foi tomando forma entre ele e minha vó... era um ser grande, cerca de quase dois metros de altura e os chifres se erguiam de sua testa, um cheiro nauseabundo advinha de sua presença. Os seus pés pareciam cascos de um bode e, onde ele estava, sibilavam serpentes, aranhas, escorpiões e lacraias... era uma cena que aumentou ainda mais meu pânico. Os olhos vermelhos fitavam a figura do homem prostrada e, com um sorriso malicioso, olhava em direção à minha vó. Calmamente, a figura demoníaca foi se aproximando do homem que, em desespero, invocava o perdão de Deus e clamava para que Ele viesse em seu auxílio. Os clamores, contudo, não foram respondidos. A figura infernal, de maneira calma, compassada e medindo cada um dos seus passos, foi se aproximando do homem.
Segurando a cabeça do homem e inclinando-a para trás, portando um punhal na mão esquerda e o que parecia ser uma taça na mão direita, a figura desferiu um golpe certeiro na garganta do homem prostrado e o sangue que jorrava do ferimento preenchia o interior da taça. O homem, sem vida, caiu ao solo e a figura, com a taça cheia, bebeu cada gota do sangue. Tão rápido a figura demoníaca apareceu, também desapareceu. Lá estava o corpo sem vida jogado ao solo e minha vó, na soleira da porta da cozinha, com o terço na mão.
Pude, enfim, entender: ele não havia se suicidado, mas sim dado em oferenda ao próprio Diabo. A figura terna que minha vó sempre transpareceu ser, na verdade, era um engano, uma mentira, uma dissimulação. Ela não era o ser angelical que todos pensavam ser. Foi minha avó que oferecera o próprio irmão como uma oferenda ao Diabo... na casa da vovó, os segredos foram relevados no fim...



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