A Memória Sobre os Caminhantes- Luiz Amorim

 



O chefe disse, se bem me recordo, para chegar no mais que possível fosse, antes da hora marcada. Portanto, cedo foi lembrança que me sorriu quando bati à porta. Esperava no paciente modo e demorado bem me pareceu quando finalmente me convidaram a entrar. Fez-me sinal para tomar assento à minha escolha, o vulto que percebi no possível da medida devido ao escuro que nos acompanhava. Era nocturna hora mas já não iria refilar como e quando fizera no antes, então perante o chefe. Mas como assim teria de ser, ali estava para o meu trabalho de exclusiva reportagem. Perguntei como era a vida do meu interlocutor durante o dia ao que resposta obtive de ser no descanso ocasional talvez mais para o frequente, ao que eu dei por escrito ser constante sem opção que fosse distinta. Pausa fiz para reparar na sala e seus adornos mas a escuridão não me deixava perceber muito para além de móveis alguns e biblioteca de grande dimensão. Foi-me oferecida uma bebida, à qual pensei dar recusa mas que no derradeiro instante me levou a antecipar o seguinte fingir no dar goles ocasionais sem beber sequer o que estaria no interior do copo. O chefe havia prevenido minha pessoa no referente a esse provável momento que obviamente não faltou. Perguntei qual o tempo preferido e recebi na volta ser a noite por sempre, excepções sem qualquer consideração. Não fiquei surpreendido e arrisquei um pouco mais na dita pretensão por uma foto para ser imprimida no jornal mas obtive a recusa mais aguardada. Para compor o texto inquiri pela memória selectiva dele por episódio algum dos curiosos ou fora do comum que lhe pudessem ter acontecido. Foi-me prevenido no cuidado preparar acerca do que estaria para vir. Ajeitei-me melhor para ficar mais confortável e senti que poderia ter ali um grande assunto que no futuro por breve acontecer seria de meu chefe, um digno orgulho. Então iniciou ele de memorizada ocorrência, verídica ou não, indiferença tanto me escrevia na vez aquela em que o meu anfitrião dizia ter integrado grupo de outros como ele, em nocturna ocasião, pois claro, rumo a um imponente castelo de longínquas paragens. Eram muitos, não sabendo precisar quantos nas dezenas que eu ousadamente acrescentei. Sabiam ou pelo menos calculavam haver suficiente recepção no castelo para tamanho agrupamento, o qual seguia alegre o bastante, no eventual vencer das inerentes dificuldades de percurso, íngreme o quanto baste mas que não os afastava do seu prometedor destino, assim mesmo o visualizavam enquanto caminhavam. Aliás, havia quem os designava por caminhantes, não sendo essa vez isolada das restantes quando em grupo estiveram. Outras houve mas aquela do relato em questão fora deveras especial. A memória dele parecia não ser vacilante nem procurar alternativas para o que pudesse ter sucedido, levando-me a acreditar estar a redigir com rapidez controlada na «Imperceptível caligrafia», no dizer ocasional de chefe. Tentei acompanhar sem tantas abreviaturas a final aproximação ao castelo, onde uma passadeira de tonalidade avermelhada se estendeu com o enorme portão a deixá-los passar, então com ligeiro desconfiar por talvez serem esperados, quando pensavam o contrário no preciso instante que parei de escrever para o fixar, procurando semblante de pormenor algum que previsivelmente não vislumbrei. Quando entraram, na ocasião de enredo que voltei a anotar na rapidez do costume, olharam salão de vistosa dimensão com mesa posta quase a perder de vista e com imensos vultos sentados. Pensaram estarem destinados a eles, cada qual para um dos caminhantes, mas depressa viram o contrário do que desejavam, comigo a deixar a escrita para reter melhor, pelo menos, a forma como seria dita a conclusão que eu deduzia, estaria a chegar admirada ou quiçá e apesar do escuro, de olhos mais arregalados a este tempo do presente e aos de chefe por futuro em modo de «Parabéns pela reportagem!». E assim foi na minha estupefacção com o relembrar de boa memória ao interlocutor meu sobre cada vulto que então confortavelmente sentado no salão do castelo, na pose de impaciente fantasma é que aguardava pelo seu caminhante de vampiresca estirpe para uma prazerosa e interminável noite.


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