Buracos - Cannubis




A mão pressionada na buzina anuncia o fim da paciência.

O sinal abre, mas o fluxo de carros continua bloqueado.


A marginal inteira parada.


Yan apoia a testa no volante por um segundo a mais do que deveria. O ar dentro do carro é pesado, cheira a combustível velho e plástico aquecido. 


À esquerda, um ônibus solta uma nuvem de fumaça. À direita, uma motocicleta passa raspando o retrovisor.


Olha o relógio no painel. 


O atraso já é inevitável, não que alguém ainda cobre horários de um contador divorciado, sem filhos... preso num domingo que não prometia nada além de tarefas domésticas adiadas.


Abre o porta luvas.


Seus dedos encontram um maço de Camel da noite passada. 


Tira um cigarro amassado e acende com o isqueiro que sempre falha na primeira tentativa.


A primeira tragada arde. A segunda desacelera o pensamento.


Ele joga o maço de volta e empurra o porta-luvas para fechá-lo.


O compartimento não cede.


Há uma resistência seca, como se algo estivesse no caminho.


 Yan suspira, já cansado de discutir com coisas pequenas, e abre o porta-luvas outra vez para identificar o obstáculo.


No fundo, entre recibos antigos, notas fiscais e contas por pagar, havia um objeto que não correspondia a nenhuma lembrança.


Um cubo de madeira.


Ele o retira devagar. Pequeno, sólido, pesado demais para o tamanho. A madeira é escura, sem verniz, fria, desconfortavelmente fria.


Em cada face, símbolos talhados com precisão obsessiva: círculos vazados, espirais, figuras humanas incompletas, olhos repetidos em padrões próximos demais uns dos outros.


O estômago de Yan se contrai.


Desde criança, padrões assim o afetavam. Buracos próximos demais. Repetição demais. Uma coceira mental impossível de ignorar. Ele nunca soube explicar. Apenas desviava o olhar.


Ele segura o cubo sem passar os dedos pelos detalhes, como se evitasse sentir a irregularidade do padrão dos desenhos.


A superfície oferece certa resistência. A madeira não é lisa como deveria ser. Há uma aspereza mínima sob a polpa dos dedos, um relevo que incomoda sem ferir.


O semáforo à frente abre novamente. 


Ninguém avança.


Yan percebe então o detalhe que antes passara despercebido: uma das faces do cubo cede levemente à pressão do polegar.


Não é um botão, nem uma alavanca. É um encaixe, preciso demais para não ser proposital e discreto demais para ser notado sem atenção.


Ele olha ao redor outra vez.


Pessoas conversam entre carros. Alguém xinga pela janela de um ônibus. Um vendedor ambulante atravessa a pista com uma caixa térmica pendurada no ombro. 


Canetas, escovas de dente, caça-palavras, bobbie good, valores simbólicos.


Tudo parece normal demais.


Yan não hesita, não premedita apenas gira o cubo.


No relógio, 12:00


O som se apaga primeiro, como se alguém tivesse fechado uma porta por dentro de sua cabeça. 


Em seguida, o peso do corpo desaparece.


Não há queda, nem deslocamento. Apenas a sensação exata de quando se perde o equilíbrio por um instante curto demais para gritar.


Então o chão retorna.


Ele está ajoelhado.


A superfície sob suas mãos é úmida, morna, irregular. O cheiro vem logo depois: ferro, carne, algo adocicado e velho. 


Yan tenta inspirar fundo e engasga. O ar é espesso demais para entrar com facilidade.


Quando levanta os olhos, o estômago se contrai com violência.


As paredes são superfícies extensas de carne esticada, costurada em placas largas, pulsando em intervalos lentos e irregulares.


Não há cor definida... Tons de vermelho, rosa sujo, manchas arroxeadas. Milhares de buracos cobrem tudo. Redondos, ovais, assimétricos e próximos demais uns dos outros.


Alguns buracos se abrem e fecham.


Outros permanecem imóveis, vazios, fundos demais para serem vistos por inteiro.


O chão é do mesmo material e cede levemente sob o peso do corpo. Cada movimento produz um som úmido, abafado, como um órgão sendo pressionado.


Yan tenta gritar mas sua boca apenas fica aberta na intenção do grito. 


Ele recua um passo e os buracos parecem reagir.


A coceira começa nos braços como um pensamento intrusivo. 


Não dói. 


Não arde.


É uma urgência silenciosa, crescente, uma necessidade absurda de tocar, de explorar, de confirmar a profundidade daquelas cavidades.


À frente, o espaço se estende além do que seus olhos alcançam. Não há paredes sólidas apenas corredores formados por massas de carne que se dobram, se encurvam, se afastam.  


Um labirinto orgânico, vivo, pulsando sem ritmo como se respirasse fora de sincronia com ele.


Yan se levanta.


Em certos trechos, os buracos não são vazios.


Há dentes.


Milhares deles.


Humanos.


Inseridos nas cavidades como sementes mal plantadas, em fileiras irregulares. Alguns se movem sozinhos, rangendo suavemente, como se mastigassem o ar. 


Yan sente o estômago subir até a garganta.


Mais adiante, algo se move.


Uma forma humana surge entre as dobras do labirinto. Não caminha, desliza. A pele é inteiramente coberta por pequenos orifícios, cada um ocupado por um dente. Não há olhos visíveis. Não há boca reconhecível.


Ainda assim, a criatura parece observá-lo.


Ela se aproxima sem pressa.


Quando passa por ele, Yan  percebe que os dentes se retraem e se projetam em ondas, criando padrões rítmicos demais, precisos demais. 


O corpo reage antes da mente. As pernas cedem. 


Ele cai de joelhos.


A criatura não o ataca.


Ela apenas continua, desaparecendo na carne viva do corredor seguinte.


O labirinto não oferece saída. Cada curva leva a outra variação do mesmo padrão. 


Buracos maiores que se agrupam em colmeias grotescas. Cavidades profundas demais para serem vistas até o fundo.


Superfícies que ondulam lentamente, criando ilusões de movimento periférico.


A coceira agora é física e se torna insuportável.


Yan sente os próprios poros se alargarem. A pele responde ao ambiente como se estivesse aprendendo uma nova linguagem.


Pequenas depressões surgem nos braços, nas pernas, no abdômen. Algumas vazias. Outras úmidas.


Ele anda até não aguentar mais.


Olha para o próprio corpo.


Os buracos agora cobrem braços, pernas, o peito. Não são mais intrusos. Estão distribuídos com uma lógica estranha, quase harmoniosa.


Caminha até uma das infinitas paredes, onde as cavidades são pequenas e numerosas demais para serem contadas.


 Aproxima o rosto. 


O estômago se revira, mas não há mais recuo possível.

Enfia o dedo em um dos buracos do próprio antebraço.


Todos os buracos diatribuidos em seu corpo se alargam e fecham em resposta ao toque. Não há como se acostumar mesmo quando os olhos não conseguem focar nas cavidades.


Ele levanta os olhos.


O pé ainda repousa sobre o freio. O semáforo continua aberto. Um motorista atrás dele grita algo. 


O relógio no painel grita a realidade, 12:03.


O cubo não está mais ali.


Yan respira fundo. O ar entra fácil demais. O corpo responde rápido demais. Leva a mão ao braço, depois ao peito, depois ao rosto.


A pele está lisa.


Ainda assim, ele não sente alívio.


Enquanto os carros avançam, ele evita olhar por muito tempo para as próprias mãos.


 Não há coceira. 


Não há dor. 


Apenas a certeza incômoda de que, sob a superfície intacta, algo foi reorganizado.


O trânsito finalmente flui. Lento e calmo. 


Yan acompanha o movimento sem pressa, suado e desconfortável como quem reaprende um movimento simples.

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