Insekt- John Spectrum
Klaus, há muitos dias, cavalgava por estradas e vilarejos dos mais diferentes territórios, após uma temporada na “terra santa”, onde lutara em defesa de Jerusalém contra muçulmanos. O teutônico envergava uma armadura ligeiramente avariada e levava consigo tanto uma espada presa à cintura, quanto uma capa branca com uma cruz negra às costas, enquanto montava seu cavalo Ajax, um garanhão com cela e capa luxuosas.
Ambos estavam cobertos de poeira e cansados da viagem, quando as ruínas de um castelo foram avistadas, não muito longe de uma ponte pela qual o cavaleiro e sua montaria passavam. Foi então que Klaus decidiu parar e descansar.
Após amarrar seu cavalo no tronco de um cipreste, o guerreiro se voltou para as ruínas banhadas pela luz do sol vespertino e as observou. Admirado pelas torres, paredes e colunas de pedra que insistiam em se manter de pé, desafiando o tempo e a vegetação em volta, ele fez uma prece em voz baixa.
Depois, retirou seu elmo, respirou o ar fresco da região e caminhou ao encontro do que restara daquele edifício. Com tranquilidade, ele passeou pelo chão de pedra repleto de galhos e folhas secas e contemplou o aspecto antigo do local.
De repente, uma voz feminina ecoou pelas ruínas, num tom alto e firme:
— Ó, príncipe! Venha para a luz!
Intrigado, o cavaleiro recolocou seu elmo e se guiou pelo som da voz, indo parar atrás de uma coluna, de onde observou algo escabroso: um inseto de proporções monstruosas, muito maior que um homem, saiu das entranhas úmidas e escuras de uma cratera no pátio do castelo e se ergueu diante de uma jovem, que estendia as mãos para a criatura!
A donzela, trajando vestes de sacerdotisa, tinha a pele morena e os cabelos negros, ao passo que o inseto ostentava antenas, olhos, patas e asas horripilantes, além de fazer um zumbido incômodo. Nenhum deles podia perceber a presença do cavaleiro porque este, mesmo horrorizado, não se movera ou fizera qualquer ruído.
Após tocar levemente seus dedos nas patas dianteiras do inseto — patas que lembravam grandes pinças —, a donzela se ajoelhou e fechou os olhos, em sinal de reverência. Compreendendo o gesto, o monstro abriu a boca enorme, exibindo palpos e mandíbulas terríveis, e mordeu a cabeça da jovem, decapitando-a!
Frente à cena, Klaus arregalou os olhos e estremeceu, mas logo se encheu de coragem e desembainhou sua espada. Apertando o cabo da arma, ele murmurou:
— Senhor dos Exércitos, dai-me forças contra esse mal!
Em seguida, saiu de onde estava, encarou o inseto, que devorava o cadáver da donzela, e lançou um grito:
— Eia!
Ao ver o cavaleiro, o animal demonstrou ferocidade, movendo os palpos e estremecendo o par de asas, de modo que seu zumbido se intensificou tremendamente!
Avançando em direção ao inimigo, que se deteve perto da cratera, Klaus atacou primeiro e viu o inseto se mover pelo pátio, buscando se defender com as patas. O teutônico revelava uma destreza incrível e lançava golpes contra o monstro, causando neste uma série de ferimentos.
No entanto, em dado momento, o inseto se empertigou e abriu as asas, como se fosse voar, fazendo o cavaleiro recuar alguns passos... mas o voo não aconteceu, e o animal aproveitou o ensejo para contra-atacar o homem, num movimento rápido e violento. Percebendo o impacto iminente, Klaus se posicionou com firmeza e apontou a espada para a criatura. Num átimo de segundo, o guerreiro rogou aos céus por um milagre, fechando os olhos...
E, de fato, o milagre pareceu se realizar, pois o inseto teve sua cabeça perfurada pela espada e gritou, caindo por terra!
Com as pernas trêmulas, Klaus também desabou no chão e, pasmo, notou sua arma presa à cabeça da criatura, que se debatia em espasmos e jorrava uma gosma esverdeada pela ferida. Devagar, o cavaleiro se ergueu, retomou sua espada e rendeu graças ao “Senhor dos Exércitos”, para, a seguir, encarar o inseto gigante e o cadáver da donzela...
Quem seria a jovem sacerdotisa? Por que ela se ofereceu em sacrifício ao monstro, a quem chamou de “príncipe”? E como poderia existir um inseto com tamanhas proporções?
Klaus não tinha respostas para tais questionamentos e apenas suspirou...
No entanto, tudo aquilo não tinha chegado ao fim, pois o solo passou a trepidar, e outro zumbido ecoou do interior da cratera, forçando o cavaleiro a se colocar em posição de guarda e, num misto de temor e excitação, esperar pelo pior...
Até que emergiu a Rainha, um segundo inseto, maior em tamanho e fúria, agitando antenas, palpos e asas defronte ao guerreiro, que tentou um ataque repleto de ousadia e acabou arrebatado por uma das patas titânicas!
Numa arremetida ágil, o monstro agarrou Klaus pela cintura, o ergueu bem alto e o apertou com força, levando este a gritar em desespero e a largar sua espada.
Em tal momento, uma vida inteira girou diante dos olhos dele, incluindo cenas de rituais, batalhas e massacres em nome de seu Deus... Uma existência marcada pela fé cega e pelo sangue derramado.
— Senhor, em tuas mãos entrego meu espírito!
Na sequência, a luz do dia se apagou, eclipsando para sempre a alma do teutônico, cujo corpo foi partido em dois, feito um graveto!
Os cadáveres todos, espalhados sobre o pátio, seriam mastigados e engolidos pela Rainha, que mataria também o cavalo Ajax e arrastaria carcaças e objetos para dentro da cratera. Assim, despedaçado por um adversário surpreendente e poderoso, maior que os enfrentados na “terra santa”, terminou a jornada de Klaus.



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