Kassandra, o menino que virou mulher - Douglas Joel


 

Kassandra, que nasceu José, tinha 33 anos. Desde cedo se sentia diferente dos demais. Não se encaixava nem no mundo, nem em si. Vivia como uma estrangeira em sua própria vida, pelo menos até os 15 anos.

Quando era José, na escola, foi um dos melhores alunos: tirava boas notas, participava ativamente das aulas, os professores adoravam o rapaz. Contudo, José sentia algo diferente em relação a si: aquele corpo não lhe cabia. Ao se ver no espelho, sentia vergonha do que via. Uma sensação que lhe causava mais que irritação: o oprimia.

"O que há de errado comigo?" Questionava-se o jovem que, em poucos dias, faria 15 anos. Como debutante, ele queria assumir quem sempre foi. Sonhava com uma festa, trajando um longo vestido bordado e rosa, com coroa de princesa na cabeça e um rapaz charmoso como seu par na valsa.

Aquilo era um sonho distante, mas o nutria todas as noites antes de ir dormir. Irrealizável, claro. Tendo em vista que sua família era cristã, da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Até os sábados eram guardados, dia sagrado do Senhor. Neste dia, só descanso e oração por toda família.

Mas José que, inquieto consigo mesmo, queria, ao menos uma vez, ser quem era. E, na busca de sua autenticidade, em seu aniversário de 15 anos, comprou um vestido rosa - não tão bonito quanto o que sonhava, pois o dinheiro economizado era pouco - e foi maquiado para escola. Estava radiante e seu brilho ofuscava mais que o sol quente de meio dia.

Saiu de casa com a cabeça erguida, mas os moradores de Craíbas não entendiam o que viam. Um rapaz, de boa família, em um vestido rosa? Aquilo chamou atenção de todos. Mas José não se importava, seguia seu caminho como quem acabou de achar o sentido da vida. E, naquele momento, o rapaz foi, em toda sua história, ele mesmo.

Chegando na escola, virou chacota. Os colegas riram, porém, ele nem se importava. Olhando-se no espelho do pátio, viu-se e amou-se pela primeira vez. Estava feliz, como nunca tinha sido. E pouco importava os olhares, o desconforto dos risos ou as palavras de seus colegas. Logo, entrou na sala e se sentou no seu lugar habitual: a primeira cadeira no centro, bem diante do quadro negro.

A professora entrou e, com um olhar de repreensão, sentou-se. José, vestido de mulher, era abjeto ante os valores cristãos daquela senhora de meia idade. Carolina tinha 55 anos e foi a primeira vez que via algo do tipo em sua trajetória escolar. Contudo, em sua parcimônia, pôs-se a fazer a chamada. E, quando chegou no nome do José, este se levantou e exclamou: "a partir de hoje é Kassandra!" E todos riram. Um riso de surpresa e inquietação perante a novidade.

No dia seguinte, os pais de José, que agora era Kassandra, foram chamados na escola. A diretora disse que comportamentos assim não seriam tolerados e os pais deveriam tomar uma atitude. A primeira delas foi um tapa que se fez estralar na cara de Kassandra. Doeu, mas ela não chorou. Não se deixou abalar e sorriu. Não se iria se resignar diante das adversidades. E estava pronta para encarar o mundo, se preciso fosse, para ser quem era.

Chegando em casa, os pais disseram que José, seu filho, morrera. Com suas roupas postas em bolsas de plástico, eles mandaram ela procurar um lugar e não voltar mais. A família cristã e devota não poderia ter uma mácula em sua reputação, conquistada com muito trabalho e oração. Kassandra foi até o quarto e desabou. Chorou. Queria gritar, mas faltava a voz. Secou as lágrimas, pegou as bolsas e partiu.

Tinha uns trocados e se dirigiu até a rodoviária. "Vou para cidade que sair o primeiro ônibus e lá farei minha história." O primeiro ônibus vinha para Arapiraca. Ao sair da rodoviária, já avistou outras transsexuais que faziam programa próximo a rodovia. Elas chegaram junto a moça e perguntaram seu nome. E, já nas primeiras palavras, viraram amigas. Kassandra tinha um novo lar.

Os anos passaram e a jovem tornou-se adulta. Aprendeu a cozinhar, arrumar cabelos, fazer unhas. E logo montou um salão de beleza. Atendia as vizinhas do bairro periférico que morava: o cabaré velho. Os anos passaram e Kassandra parecia feliz. Contudo, as desgraças sempre vêm.

Com a clientela cada mês mais escassa, Kassandra se viu obrigada a procurar emprego. Saiu por todo comércio distribuindo currículos, mas neles não havia quase nada para agregar valor em sua eventual contratação. Além disso, havia preconceitos perante sua transsexualidade. A moça não sabia o que faria. Encontrava-se perdida e chorava pedindo ajuda aos céus e ao mesmo Deus que fizera seus pais a expulsarem de casa. Em resposta, só escutou o silêncio.

Em meio às contradições do sistema econômico, só viu uma saída: a prostituição. Não era o caminho que sonhava para si. Queria mesmo era estudar biologia, ser professora, ter um marido, um casal de filhos, uma casa com muitas plantas e alguns gatinhos. Todavia, o destino é sempre incerto e traz surpresas.

Era um sábado. Se maquiou, botou uma saia, vestiu um fio dental, uma camisa curta e foi até a rodovia. Lá pelas 23h00, um caminhão, de parachoques duros, foi diminuindo a velocidade e parou perto da moça. "Quanto tá o programa, vagabunda?" Ela não sabia o valor a cobrar, porém, se propôs a entrar na carreta. E aquele homem gordo, de bigode, um tanto sujo e mal cheiro, começou a manobrar o carro, indo cada vez mais rápido. Seguindo a rodovia a caminho de Maceió. Parou o automóvel perto do nada e, pondo o pênis para fora disse: "me chupa." Ela, com receio e nojo, pôs-se a fazer as vontades do sujeito asqueroso. E, logo, ele chegou no seu clímax.

Kassandra se sentia suja, mas queria o dinheiro. Quando mencionou, recebeu um soco no nariz e este sangrou. Tentou reagir, mas o homem, cada vez mais agressivo, batia nela com mais força. Pegou a chave de roda e deu golpes na cabeça da moça. Ela desmaiou e ele jogou o corpo no acostamento. Então, logo pôs-se a dar chutes e pisar em sua cabeça. Ela tremia e se contorcia. E, engasgada com o sangue, deu seu último suspiro. O motorista, voltando para o caminhão, debandou.

O corpo de Kassandra só foi achado cinco dias depois, num estado avançado de putrefação. Os urubus alimentavam-se de sua carcaça e aquilo chamou a atenção dos moradores. Logo ligaram para polícia. Chegaram horas depois com o carro do IML. Kassandra não levou os documentos naquela fatídica noite. Foi enterrada como indigente.

O tempo passou e dizem que nas noites de sábados se escutam choros naquele trecho. Caminhoneiros veem uma moça jovem de vestido bordado e cor-de-rosa. E, em todos esses anos, há acidentes com caminhões naquele trajeto. Kassandra, hoje um espírito obsessor, procura se vingar de um mundo que a castigou desde o início.


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