Porta para Sete Além - Augusto Luiz Melare

 


Já tem bem cinco meses que ouvi falar de Sete Além e me tornei um fissurado pelo local. Em meu apartamento apertado, entre uma pintura e outra, antes da limpeza de um dia e depois da louça de outro, faço pesquisas sobre essa estranha dimensão. Na semana retrasada, consegui contatar uma mulher de Ribeirão Pires que afirmou ter viajado para a realidade paralela três vezes, o máximo que uma pessoa já conseguiu. Eu a encontrei num fórum do qual participo desde janeiro.

Seu nome é Matilde da Silva Bertonni, tem 31 anos. Segundo ela, uma das inexplicáveis pontes interdimensionais que ligam nosso mundo a Sete Além fica próxima à chácara abandonada que pertencia a seu tio há dez anos atrás. Até hoje, ninguém fez nada com a casa; ela apenas é raramente visitada por campistas aventureiros e caçadores de mistérios. Ninguém nega o desconforto da estadia.

Matilde me contou que, quando tinha doze anos, brincava de vôlei com três primos no gramado quando um deles, bruto e homenzarrão precoce, golpeou a bola para muito longe. Como ela era a menor e mais nova do grupo, foi mandada buscar a bola. Ela caíra no meio dos altos e sombrosos pinheiros que limitavam o terreno e quicara poucos metros adiante, até ser parada pela grama alta.

 Não havia nada além de mato e árvores mal-humoradas muito velhas naquela parte da terra. Mas assim que a menina pegou a bola e levantou a cabeça, viu-se na frente de um homem pitoresco e maltrapilho, que devia ter uns quarenta e cinco anos de idade bem mal vividos e judiados.

Ele disse: “Não quero crianças tolas brincando em meu gramado”. O olhar severo bastava para significar a ordem para ir embora. Matilde relata que as pálpebras dele eram enfiadas em torno dos amarelentos globos oculares e o nariz era ossudo e saliente, de modo que o homem parecia um corvo.

“Me desculpe, senhor, foi meu primo quem jogou a bola, eu só vim buscar”, disse-lhe Matilde. Várias vezes ela e seus primos, ou as irmãs, entravam naquele terreno para se esconderem ou brincarem, mas nunca haviam notado que alguém morava lá. De fato, ninguém morava.

O homem corvo, segurando um facão enferrujado, apontou o instrumento e disse: “Se algum de vocês, fedelhos, tornar a vir para cá, vou mandar meu filho cuidar de vocês”. Matilde olhou com muito medo, para onde ele apontava o facão. Viu seus três primos, dois sentados na grama e outro em pé alongando os braços finos. Logo adiante dos três estava outro homem, uma figura alta, escura e esguia que segurava uma grande foice de decapitar bois. O filho não podia ser visto pelos rapazes e não tinha rosto aparente.

“Eu prometo que não volto. Por favor, não faz nada para a gente”, disse a menina, espavorida, e saiu correndo. Naquele dia, a brincadeira acabou porque Anselmo, o menino mais novo, tivera seu ombro cortado sem causa visível e precisara de sete pontos para fechar a ferida.

No fórum de que participo, chamado Perdidos em Sete Além, Matilde não teve muita credibilidade com este relato, pois nada nele garante que ela realmente tivera um contato com a outra dimensão. Mas os outros dois relatos confirmam a veracidade e gravidade do primeiro. Poucos anos depois de ter o contato com os homens nefastos do outro mundo, da Silva experienciou algo que considero ainda mais pavoroso.

Conta ela que, aos dezesseis anos, estava passando os finais de semana na casa do tio com muita frequência e percebera que, geralmente às três horas da manhã, uma “coisa”, ou algumas “coisas”, fazia barulhos ao longe no terreno. Certa vez, num 23 de maio, um grunhido animalesco seu ouviu muito próximo à porta de entrada. Matilde estava brincando de verdade ou desafio com seus primos e acabou sendo desafiada a sair da casa.

Muito valente e desejosa de se provar, a jovem foi. Tinha em mãos uma lanterna fraca, mas aos poucos seus olhos se adaptaram e puderam enxergar formas no escuro, algumas delas irreais. Instantaneamente, seu medo se tornou entusiasmo e, toda vez que ouvia um barulho na grama ou silvos suspeitos, apressava-se para ir de encontro. Suava muito.

Sua esperança era a de encontrar alguma raposa ou animal pequeno, mas o grunhido que ela e os primos haviam ouvido era de um bicho desconhecidamente maior. Indo para a varanda onde ficava a churrasqueira, sua lanterna iluminou uma estranha espécie de vaca. Ela era um pouco mais alta e bem mais larga que as vacas normais, os olhos eram vermelhos e saltados para fora do crânio e um de seus chifres enrugados tinha várias bifurcações, como uma árvore seca e grotesca brotando de sua cabeça.

De relance o bicho deu um grito surreal e arreganhou seus grandes dentes para avançar contra Matilde. Esta correu gritando e chorando para entrar novamente na casa e foi surpreendida pelo filho do homem corvo. Ele estava parado em seu caminho segurando a horrenda foice novamente. Não tinha rosto.

Matilde parou e olhou para trás para ver se o bicho ainda a seguia e vou uma mulher gorda e maltrapilha laçar a vaca, que caiu de lado parada por sua força inexplicada. Então o homem muito grande e esguio apressou-se em suas longas pernas e decapitou o bicho. Seus gritos sobrenaturais foram interrompidos pelo silêncio, que era superior em medonhice porque banhado pela presença incômoda da dupla de pessoas feias.

Esbaforida, chocada com a visão da vaca parecida com uma experiência falha de transgenia, a jovem ficou paralisada sobre o corpo trêmulo. Então a vaqueira, esquisita e de cabelos malcuidados, aproximou-se para tentar acalmá-la. “Você está bem, querida?”. Da Silva olhou para a cara da mulher, que tinha olhos que não faziam a falta de olhos do filho parecer assustadora, e tentou falar normalmente: “Que tipo de bicho é esse?”.

A mulher não respondeu à pergunta, apenas disse: “Eu prefiro matar quando fazem essa malcriação. Os bichos de Sete Além são demais para a gente fraquinha daqui. Logo vamos construir um muro e você vai poder ficar sossegada”.

E foi assim que se confirmou. A mulher disse claramente o nome “Sete Além”.

Fiquei muito faminto de vivência e de mistério quando contatei Matilde e, apesar de suas muitas advertências, consegui dela uma permissão para passar um fim de semana na casa para ver se tenho um contato com a medonha realidade paralela. Há treze dias passei meus dois primeiros dias na chácara abandonada com minha barraca e comidas de camping. Fiquei num quanto com grande janela de vidro para ter uma bela vista do sol pela manhã.

Nesses dois primeiros dias, a presença de mais dois campistas e o barulho deles fazendo sexo à noite na sala de estar me incomodou, mas aproveitei bem o tempo para meditar, fazer desenhos bem detalhados em meu sketch book rústico, grande companheiro, e fui três vezes ao dia e três à noite rondar o terreno.

Eu esperava dar de cara, cedo ou tarde, com o muro que os bizarros fazendeiros de Sete Além haviam construído para impedir que o gado monstruoso escapasse. No entanto, nada de muro, nem mesmo uma cerca parca. Ansioso, retornei no sábado seguinte e fiquei na chácara cinco horas apenas. Um jovem morador da região percebeu que eu estava indo à casa pela segunda vez e me perguntou o que eu ia fazer por lá. Eu disse: “Sim, sou interessado em relatos de fenômenos estranhos que acontecem por aqui e vim ver por mim mesmo”.

O rapaz me disse: “Cuidado pra não achar. Eu já fui dar um passeio pelo terreno do vizinho e quando voltei encontrei um muro. Eu não sabia como ele tinha aparecido e não dava para pular; tinha cacos de vidro e garrafas em cima. Fiquei perdido do outro lado por três horas procurando uma forma de sair e o lugar parecia ser de outro mundo. Só voltei pra casa quando o muro sumiu de uma forma misteriosa e eu consegui retornar pelo mesmo caminho que usei para ir. Chegando em casa, vi que eu estive fora por apenas meia hora”.

Agradeci o aviso e segui meu caminho, não sem antes fazer umas perguntas e expressar meu contentamento por ouvir mais um relato. Naquele dia, também não consegui testemunhar nenhuma manifestação da outra realidade. Fiquei sentado ao tronco duma árvore enquanto lia ou fazia desenhos para passar o tempo. Mas antes de ontem, quarta-feira, cinco dias depois da visita anterior, fui novamente para a chácara paranormal, tamanha minha excitação.

Fui para passar a noite, já que ontem, quinta-feira, foi feriado. Uma coceira na nuca me dizia que aquele seria o dia em que algo finalmente viria a acontecer. Fiz a mala, embalei a marmita da viagem e fui num pé, rápido. Cheguei à casa às oito e meia da noite e a encontrei vazia e mais silenciosa do que nunca. Depois de aproximadamente uma hora de espera, decidi passar a noite naquele lugar como se não estivesse esperando nada de especial. Quem sabe assim minha ansiedade se acalmasse e o mistério perdesse a vergonha de se revelar.

À uma da manhã, depois de ter terminado duas tarefas do meu trabalho em meu “caderno da organização”, decidi que estava com sono suficiente. Sabia que se aproximavam as fantasmagóricas três horas da manhã, mas dormi sem ter medo de perder nada. Caso acontecesse algo, eu acordaria. Não sou de me gabar, mas o perigo deve me ver como um animal suculento perfeito para ser comido vivo, uma presa muito fácil.

Estava tranquilo em meu sonho; já me conformava em apenas passar mais uma noite na chácara misteriosa como se dorme numa cabana aconchegante de Campos do Jordão. Mas ouvi de súbito um estrondo ao longe em meu sonho. Eram uma coisa que acontecia no mundo real com tamanha força que me alcançava no mundo do sono e vinha me despertar. Um tanto amedrontado, me arrependendo quase que perdidamente por estar naquele lugar, ouvi passos agitados de pés fugidios pelo chão amadeirado da casa. O bater de pés delatava que alguém vinha subindo as escadas em direção justamente ao meu quarto. Arregalei os olhos.

Eu não tinha o que fazer, apenas desejava que não fosse um malfeitor vindo me perturbar, ou um assassinato secreto, ou um monstro tenebroso de Sete Além vindo me expulsar. Os barulhos só foram chegando mais perto, causando arrepios em minha espinha, e então alguém entrou correndo no quarto e fechou a porta com pressa.

Tive sorte de estar dentro de uma barraca para me pesconder. Por mais que fosse fina, poderia me proteger da visão de quem quer que estivesse lá comigo. Mas pensei cedo demais. Eu não contava que a pessoa, ou criatura, fosse abrir o zíper da barraca e se jogar em cima de mim. Soltei um grito, mas minha boca foi logo tampada. Na grudenta mão senti um cheiro de sangue.

De fora da casa ouviu-se um protesto: “Moleque fedido de merda, eu ainda posso ir atrás de você”. Foi então que percebi o que acontecia. O cheiro de sangue nas mãos de quem eu abraçava, o coração acelerado e o homem rústico bradando fora só podiam significar que aquele rapaz estava em perigo e vinha de Sete Além. Devia ter costado as mãos nos cacos de vidro do muro. As três horas da manhã haviam passado e as estranhas interações entre os dois mundos haviam começado.

Tratei logo de me acalmar e acudir o condenado. “Se estiver nessa casa abandonada, toco fogo nela, miserável”, disse o homem rústico; “Você não pode correr de três, é melhor se render antes que sua situação fique ainda pior, primata nojento”, disse uma segunda voz, feminina e velha. Isso me desacalmou. Eu disse baixinho no ouvido do jovem assustado: “Silêncio, vamos sair logo desse quarto antes que achem a gente. A barraca não vai nos esconder”.

Saímos andando com o passo muito devagar e cauteloso. O menino, já alto demais para ser tratado como tal, pulou em mim e me abraçou com braços e pernas. Pensei em retroagir, mas o pavor que fazia estremecer sua pele quente como se vestisse penugem me convenceu a carrega-lo. Ele emita sons estranhos, como se algo estivesse preso em sua garganta, seus movimentos e modo de se pendurar em mim eram esquisitos. Devia estar assustado demais por estar quase diante da morte.

Saímos do quarto em silêncio. Estava tudo muito escuro e usei a tela do celular para iluminar; realmente não poderia fazer nenhuma ligação estando sem crédito. “Aparece, miserável!”, gritou a mulher velha. Sua voz estava mais distante da casa. Era provável que estivesse no galpão de ferramentas. Se não iam entrar na casa tão logo, poderíamos fugir pela porta da frente, mas havia três deles e um plano melhor feito seria necessário.

Ouvi o som de uma coisa sendo derrubada na cozinha e eu estava no meio de um corredor no segundo andar. Tive que pensar rápido. No outro lado do corredor havia outro quarto grande com uma sacada e uma grade de madeira para flores apoiada nela. Conseguiríamos descer, mas ainda faltava distrair os assassinos para termos tempo. Dando um passo para trás, entrei novamente em meu quarto, peguei a lanterna e coloquei o rapaz no chão. Ele protestou, mas sem falar.

No outro lado do corredor, oposto ao quarto da fuga e perto das escadas, havia uma pequena janela. Coloquei o celular para despertar um minuto depois e o joguei na grama, assim achariam que estávamos fora. “Vamos ter que colocar fogo aqui?”, perguntou uma voz grossa vinda de baixo. O rapaz estranho pulou em meu colo de novo, apavorado, e fez um “Wrawp”.

Sem tempo de pensar em mais nada, antes que pudéssemos encontrar um assassino, caminhei para o último quarto do corredor o mais rápido e mais silencioso que pude. Apaguei a lanterna para deixar aquele andar no escuro. “O que estou fazendo da minha vida?”, pensei. Aquele era o pior dia para tentar procurar Sete Além. No momento, eu estava com um meninão assustado e ferido no colo, tentava fugir de assassinos e poderia, se fracassasse, morrer junto com a outra vítima, ou ficar preso num incêndio.

Meu celular despertou e meu coração acelerou, o som era alto o suficiente para chamar a atenção dos monstros para fora da casa. Me apressei em entrar na suíte, tranquei a porta com o trinco enferrujado e só então liguei a lanterna de novo. Apontei-a para todos os cantos do quarto primeiro, para ver se havia algum perigo lá. Não havia, e aporta da sacada estava aberta esperando por nós. Num gesto assustado, iluminei inclusive dentro do banheiro para ter certeza de que não seríamos apunhalados pelas costas. Também não havia ninguém lá, mas havia algo pior. Naquele momento, quando apontei a lanterna para o espelho do banheiro, foi que eu vi o que estava abraçando.


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