Comida Honesta- Ana Rosenrot

 


 

No início, era só um odor azedo no corredor do Edifício Santa Augusta, um prédio velho espremido entre uma imobiliária e uma loja de colchões usados no centro de São Paulo. Algo parecido com cebola esquecida dentro de um sapato molhado. Depois, ganhou corpo. Ficou mais denso, oleoso, quase mastigável.

Os moradores passaram a subir as escadas prendendo a respiração.

O apartamento 307 pertencia a Geraldo Bittencourt, quarenta e oito anos, solteiro, cozinheiro autodidata e crítico gastronômico de internet. Um homem cuja aparência lembrava um guardanapo usado. Pele oleosa, barba rala, braços peludos, dedos amarelados de nicotina e unhas compridas e encurvadas.

Geraldo administrava um canal no YouTube chamado “Comida Honesta”. O conceito era simples: destruir restaurantes, humilhar cozinheiros e ensinar receitas bizarras que ele chamava de “comida verdadeira”. Seus vídeos tinham milhões de visualizações e curtidas. Seus seguidores eram gente que gostava de ouvir frases como:

“Isso não é risoto. Isso é arroz cuspido.”

“A sopa famosa servida no “The Alcide’s” tem cor e gosto de mijo.”

“ Os pratos daquele cozinheiro francês Jac não sei das quantas, são muito bons…Para jogar no mato.”

Ou:

“Quem coloca aqueles caldos de galinha artificiais na comida deveria ter uma paralisia e perder a capacidade de mastigar.”

O público adorava. A internet recompensa crueldade com algoritmos e anúncios de facas e panelas antiaderentes caras.

Na semana em que o cheiro apareceu, Geraldo estava obcecado por uma nova receita.

“Molho de cogumelos fermentados.”

Segundo ele, seria “a maior revolução gastronômica desde a invenção da manteiga”.

O apartamento era pequeno, abafado e úmido. A cozinha ocupava metade do espaço. Panelas engorduradas pendiam do teto como instrumentos de tortura medieval. O piso estava pegajoso. Moscas caminhavam tranquilamente pelas paredes, gordas e confiantes como animais domésticos.

A geladeira velha emitia um zumbido irregular, parecido com respiração asmática.

Dentro dela havia dezenas de potes etiquetados:

 

“Caldo de ossos, lote 3.”

“Picles experimental.”

“Olhos de peixe espada”.

“Testículos de bode”

“Fermentação 12. ”Não abra jamais.”

 

Esse último estava inchado. Geraldo o observava com fascínio religioso.

Na bancada repousavam quilos de cogumelos escuros comprados de um fornecedor clandestino no Mercadão. Eram viscosos, úmidos e tinham um cheiro de terra recém-aberta sobre um caixão.

Perfeito. Ele ligou a câmera.

— Hoje vocês vão aprender a verdadeira culinária — disse, sorrindo para a lente com dentes da cor de nicotina velha. — Não essa palhaçada gourmetizada feita por influencers de aventalzinho bege.

Cuspiu no pano de prato sem perceber. Ou percebendo e não ligando.

Ele ergueu um cogumelo.

— Isso aqui está vivo. E comida viva é comida honesta.

O comentário mais curtido da live foi:

“Parece um órgão interno! Que nojento!.”

Geraldo leu e sorriu. Gostava quando as pessoas sentiam nojo. Considerava isso sinal de sofisticação.

A receita começou às oito da noite.

Primeiro, limpou os cogumelos com um pano seco.

Mesmo sabendo que o correto seria lavá-los, mas ele insistia que lavar ingredientes destrói a “personalidade”.

Depois, picou muito alho. Quantidades obscenas. Dentes amassados com a lateral da faca até virarem uma pasta branca e agressiva.

A gordura usada era manteiga envelhecida. Não manteiga clarificada. Envelhecida.

Ele deixava tabletes fora da geladeira por dias, até começarem a cheirar chulé para “aprofundar o sabor”.

Na antiga panela de ferro, a manteiga derreteu lentamente. O alho entrou logo depois. A cozinha inteira ganhou um aroma maravilhoso por cerca de oito segundos. Então os cogumelos tocaram o fundo quente.

Um estalo molhado ecoou. Líquido negro começou a escapar deles. Não parecia água. Parecia tinta.

Geraldo mexeu devagar.

— O segredo é refogar sem pressa.

Aproximou a câmera da panela. Os cogumelos escuros brilhavam como lesmas cozidas. Ele acrescentou vinho branco seco. O vapor subiu imediatamente, enchendo a cozinha de um cheiro ácido, alcoólico e doce ao mesmo tempo. Depois veio o caldo. Depois o tomilho. Depois, creme de leite azedo.

A textura começou a engrossar.

Enquanto o molho reduzia, ele abriu o pote etiquetado como “Fermentação 12”.

O apartamento gemeu. Não há outra palavra. O cheiro saiu do recipiente como uma entidade física.

A câmera perdeu o foco por um instante. Na live, os comentários dispararam:

“MEU DEUS!”

“QUE PORRA É ESSA?”

“PARECE GÁS DE ESGOTO!”

Dentro do pote havia uma pasta escura coberta por manchas esbranquiçadas.

Com uma colher, adicionou uma pequena porção ao molho. O equivalente a uma colher de chá. A reação foi imediata. O creme começou a borbulhar violentamente. Espuma cinza subiu pela panela.

O cheiro piorou. Não era ruim no sentido comum, mas num nível biológico.

Na live, centenas de pessoas assistiam horrorizadas. Mas continuavam assistindo.

Geraldo provou o molho. Parou. Piscou, lacrimejou, engasgou. Então começou a rir. Um riso seco, curto, incrédulo.

— Puta que pariu...

A voz saiu baixa.

— Eu consegui. É perfeito! Vocês deveriam experimentar! Isso sim é comida honesta.

E sem dizer mais nada desligou a câmera, encerrando a transmissão.

No dia seguinte, o vídeo viralizou, alcançando quatro milhões de visualizações. Os comentários se dividiam entre:

“Isso devia ser crime!” “Foi a coisa mais nojenta que eu já vi!”

E:

“Preciso experimentar!”

Naquela noite, Geraldo começou a servir o molho clandestinamente.

Convidou três seguidores para um jantar exclusivo no apartamento. Cobrou uma pequena fortuna.

Todos aceitaram. Vieram às nove.

Um designer gráfico magro demais, uma estudante de gastronomia com franja azul torta e um homem silencioso que trabalhava com criptomoedas. O que demonstrava a total ausência de critérios do anfitrião.

Geraldo serviu massa fresca. Talharim artesanal. Uma receita básica e simples, mas tecnicamente impecável. Então ele adicionou o ingrediente especial: o molho de cogumelos fermentados.

Espesso. Escuro. Brilhante. O cheiro atingiu a todos como um soco.

A estudante recuou.

— Isso é normal?

— Claro, se você esperava nuggets com macarrão instantâneo, veio ao lugar errado. — respondeu Geraldo.

Ela riu sem graça. Todos comeram. Primeira garfada. Silêncio. Segunda. Mais silêncio. Terceira...

O designer começou a chorar. Literalmente. Lágrimas escorriam enquanto mastigava.

— Cara... — murmurou. — Isso é absurdo.

O homem das criptomoedas tremia. A estudante arfava baixinho.

O molho tinha um sabor impossível. Profundo demais. Terroso. Ácido. Doce. Metálico. Como vinho velho misturado com terra molhada e algo animalesco. Algo errado. Mas irresistível.

Comeram tudo. Rasparam os pratos. Depois ficaram sentados em silêncio, respirando pesadamente.

Pareciam drogados. Geraldo sorria. Vaidoso. Triunfante.

Na madrugada, o designer vomitou sangue no banheiro.

A estudante perdeu todas as unhas enquanto dormia.

O homem das criptomoedas arrancou um dente com um alicate porque jurava sentir algo crescendo dentro dele.

Na noite seguinte, os três estavam mortos.

Enquanto isso, no apartamento 307, Geraldo preparava mais molho, acrescentando maiores quantidades de fermentado 12 cada vez que repetia a receita.

Postou vídeos. Ganhou uma legião de novos seguidores. No sexto dia, as moscas desapareceram.

Todas. O apartamento ficou silencioso demais. Então vieram os fungos. Primeiro nos cantos. Pequenas manchas cinzentas. Depois atrás da pia. Depois no teto. Cresciam rápido. Rápido demais.

Geraldo fotografava tudo, excitado como um explorador científico.

As manchas pulsavam levemente. Ele fingia não perceber.

Naquela noite, decidiu oficializar e aperfeiçoar a receita. Enquanto cozinhava, anotava tudo num caderno engordurado:

 

“Molho de cogumelos fermentados do chef Geraldo.”

 

Ingredientes:

 

-  500g de cogumelos selvagens

-  30 dentes de alho

-  5 cebolas roxas grandes

- 150g de manteiga envelhecida

- 100ml de vinho branco seco

- 300ml de caldo de legumes

- 200ml de creme de leite azedo

- Tomilho

-  Sal

- Pimenta

- 4 colheres de sopa da fermentação 12

 

Modo de preparo:

Refogue a cebola e o alho lentamente na manteiga até dourarem. Adicione os cogumelos e cozinhe até liberarem líquido. Acrescente o vinho branco e reduza. Junte o caldo e cozinhe por vinte minutos. Finalize com creme de leite, tomilho e a Fermentação 12. Mexa até engrossar.

“Sirva imediatamente.” “Não deixe descansar.”

 

Satisfeito, desligou o fogo, tampou a panela, guardou o caderno e foi dormir.

Às três da manhã, acordou com um barulho vindo da cozinha. A panela fervia sozinha e o molho borbulhava lentamente. Espesso como piche. O cheiro era insuportável. Havia algo se movendo, nadando dentro dele. Fazendo movimentos ondulantes.

Geraldo observou em silêncio. Ele pegou uma colher. Mexeu um pouco e então provou. Uma única gota na ponta da língua. Seu corpo inteiro enrijeceu e ele deixou a colher cair. O gosto era colossal. Não delicioso. Maior que isso. Como se cada nervo da boca estivesse sendo acariciado por mãos invisíveis. Ele caiu de joelhos. Começou a salivar violentamente. O estômago se contraiu. Os olhos lacrimejaram e ele perdeu os sentidos.

Quando acordou, ouviu sons de mastigação vindos das paredes. Sons lentos, úmidos.

A cozinha inteira parecia comer alguma coisa. O teto pulsava.

As manchas de fungo haviam crescido. Filamentos grossos desciam pelas paredes como veias.

O cheiro agora era tão intenso que queimava os olhos.

Geraldo tentou se levantar. Escorregou e caiu. O chão estava coberto por uma película viscosa. O fungo avançava. Silencioso. Determinado.

Vários moradores reclamaram do cheiro.

O síndico ameaçou chamar a vigilância sanitária.

Geraldo ignorou a ameaça. Passava o tempo todo alimentando a fermentação. Porque era isso que ela queria. Comida. Não carne. Não sangue. Comida. Restos de legumes. Molho. Pão. Leite. Óleo. Ovos. Quanto mais a alimentava, mais ela crescia. E melhor o cheiro ficava. Esse era o detalhe irônico.

O odor pútrido desapareceu aos poucos e em seu lugar surgiu um perfume delicioso. Manteiga. Alho assado. Ervas. Pão recém-saído do forno.

O prédio inteiro cheirava como um restaurante italiano sofisticado. Os moradores começaram a sentir fome. Muita fome.

Eles comiam como loucos, mas a fome só aumentava. Sempre. Ninguém no prédio se sentia satisfeito.

Já no apartamento 307, o fungo dominava a cozinha.

As paredes respiravam. O teto pingava gordura morna. Panelas tremiam sozinhas. E a fermentação crescia dentro da panela.

Geraldo documentava tudo. Em cadernos. Vídeos. Áudios.

Nos corredores, os moradores começaram a bater nas portas uns dos outros.

Pedindo comida. Roubando comida. Gritando. Brigando. Quebrando tudo o que não era comestível.

Todos no prédio estavam presos numa histeria gastronômica coletiva.

Na madrugada, o síndico decidiu arrombar o apartamento 307, de onde vinha o cheiro que havia enlouquecido os moradores. Quando a porta cedeu, encontrou a cozinha completamente tomada. Fungos grossos cobriam teto e chão. Uma panela de ferro fervia sem fogo.

E Geraldo estava sentado à mesa, extremamente magro. Os olhos fundos, vidrados. Uma baba espessa escorrendo da boca. A pele acinzentada. E sorrindo. Diante dele havia um prato de talharim coberto pelo molho negro. Ainda fumegante.

— Quer experimentar? — perguntou.

O síndico vomitou imediatamente.

Não por causa do cheiro, que era delicioso, mas pelo som vindo do molho que sussurrava, gemia e por mais que parecesse impossível, se contorcia.

Geraldo girou o garfo.

— Você sabe qual é o problema das pessoas? — disse calmamente. — Elas só querem comida morta. Tudo esterilizado. Pasteurizado. Embalado. Congelado. Sem risco. Sem vida.

O fungo pulsou nas paredes.

O síndico recuou. O chão afundava sob seus pés.

— Agora todos vão entender... — sussurrou Geraldo, sorrindo com dentes cobertos por resíduos negros. — Isso aqui está cozinhando a gente. O prédio se tornará um enorme estômago. Seremos seu alimento. Finalmente seremos úteis, nos tornaremos comida de verdade, pura, fresca… honesta!

Horrorizado, o síndico tentou correr, mas caiu. E nunca mais foi visto.

Quatro dias depois, após várias denúncias, o Santa Augusta foi invadido e interditado.

A polícia encontrou apartamentos vazios, móveis e utensílios quebrados, geladeiras destruídas e embalagens vazias de comida espalhadas por todos os andares.

No 307 havia apenas a cozinha. Limpa, impecável. Nenhum corpo. Nenhum sinal de Geraldo ou do síndico.

Só a panela. Ainda quente. Dentro dela, o molho borbulhava lentamente.

Os agentes relataram um cheiro extremamente agradável no local.

Um policial teria dito:

— Puta merda. Esse cheiro me deixou morrendo de fome.

Recolheram a panela como prova e ela desapareceu do depósito da polícia na semana seguinte.

Ninguém assumiu a responsabilidade.

Meses depois, pequenos restaurantes começaram a surgir pela cidade oferecendo molhos “artesanais” com sabor “inexplicavelmente profundo” e baseados nas receitas do extinto canal “Comida Honesta”.

As avaliações online eram excelentes. Clientes descreviam experiências emocionais intensas. Alguns choravam ao comer. Outros adoeciam. Houve relatos de fome compulsiva. Ataques de fúria. Insônia. Alguns foram encontrados mortos dias depois.

Mas nada foi comprovado. Em pouco tempo, tudo caiu no esquecimento e no máximo era citado como lenda urbana.

Porque o ser humano é capaz de engolir qualquer mentira, desde que servida em pratos bonitos ou embalagens adequadas.

Principalmente se vier acompanhado de pão quentinho.

 


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