Aniversário de 19- Augusto Luiz Melaré
Aaaaaaah!
Que manhã belíssima. Como é bom acordar neste dia ensolarado! É verão. Sou do
signo de capricórnio, nasci em 18 de janeiro de 1998. Hoje vou completar meus
tão desejados 19 anos. Nada é melhor que fazer aniversário em mês de férias.
Não vou levar ovada, nem terei de ficar esperando a hora de sair da escola para
comemorar com minhas estranhezas preferidas. E a novidade deste ano é que
decidi preparar tudo sozinho.
Acordei
às cinco horas e quarenta da manhã e quero fazer hoje tudo mais cedo, pois o
ânimo desta festividade me deixou muito entusiasmado. Logo me aprontei, escovei
os dentes, dei para o espelho aquele sorriso de quem já sabe que realizará um
plano infalível e fui fazer o café da minha mãe. Duas canecas de água, três
colheres de pó, só uma de açúcar. Não é para sempre que terei uma mãe.
Depois
de ver um fraco e sonolento sorriso matinal de satisfação, retornei à cozinha e
comecei a fazer meus tão desejados cup cakes de aniversário. Seriam o
ponto máximo da minha festa e já há seis meses eu os desejo. Aprendi a fazer só
na semana passada e treinei umas duas vezes. Foi o máximo! Estava tímido na
primeira tentativa, até pedi ajuda; mas fiquei tão contente com o resultado,
que fiz bolinhos de uns cinco sabores em minha segunda fornada.
Os
de hoje têm cinco sabores também, tão gostosos e doces que nem mesmo veneno
ácido poderia estragar o sabor. O primeiro é de castanhas com Nutella, receita
que experimentei no Natal. O segundo e o terceiro têm laranja, mas um é com
castanha do Pará e abacaxi e outro é com doce de leite e raspas de limão. O
quarto é um sabor que eu mesmo tinha inventado uns dias atrás, mel e pimenta. E
o quinto sabor é o meu preferido, cenoura com frutas cristalizadas. O meu
preferido não poderia faltar no menu, é claro; e todos eles seriam gelados,
porque penso que tanto bolo quanto panetone são mais gostosos gelados.
Quando
estava prestes a colocar a massa no forno, minha mãe desceu para a cozinha. Ela
é preguiçosa. Acorda cedo, mas é só para ficar na cama lendo um bando de livros
sobre várias coisas, desde romances até fofocas. Ela me perguntou:
—
Tomou seu remédio hoje, Hélio?
Sim,
mãe, eu tomei sim.
Mas
eu odeio tomar remédios!
Agora,
voltando ao assunto, fiz quarenta cup cakes, que imagino que sejam
suficientes para nossos vinte convidados. Convidamos os parentes mais próximos,
apenas, e alguns amigos da escola. Mas estes não eram bem amigos; como estou de
bom humor, fiz questão de convidar aqueles com quem já tive algum tipo de
problema. Assim poderemos nos reconciliar antes que eu inicie mais um ano e,
com isso, inicie uma nova vida.
Meus
outros amigos até gostariam de vir, gostariam muito, mas quero poupá-los de
minha festa para irmos a um passeio no dia seguinte. Penso que poderíamos fugir
para não sei onde. Talvez um lugar frio, para variar; há um tempão poupo
dinheiro. Agora que completei a maioridade, surgiu um estranho desejo de dar
adeus à minha vida e me perder um pouco pelo mundo, sabe? Desejo de viajar para
longe daqui, longe de meus problemas.
Lugar
frio... um lugar frio. Eu coloquei em meus cup cakes de cenoura uma
cobertura de chantili branco azulado com granulado prata, parece até uma
paisagem de inverno. Eu gosto de brisar um pouco enquanto faço comida. Nos
bolinhos de mel e pimenta, quis desenhar uma estrela de chantili vermelho com
um tabletinho de chocolate em cima. Meu terapeuta me disse que é bom que eu me
expresse artisticamente.
Aaah!
Enfim. Que canseira... Nossa! Que canseira! A hora passou e eu nem vi! Já são
quatro horas; os convidados chegarão às seis. Preciso colocar os bolinhos na
geladeira para que estejam bem geladinhos na hora de servir.
Subi
ao meu quarto e me vesti com uma de minhas roupas preferidas. Um casaco preto
caro que eu comprei pela internet, camisa de botão com um broche brilhante,
calça básica de brim com uma corrente grossa pendurada na lateral e minhas
botas novas, que comprei no centro na semana passada. Estou muito elegante
hoje. Apesar de ser verão, quis vestir esta roupa preta e fúnebre para a minha
festividade. Eu sempre me visto fúnebre. É meu estilo favorito.
E
chegou meu primeiro convidado, meu avô. Sempre me perguntando:
—
E as namoradas?
Ah,
estão ótimas. Eu realmente tenho duas, vovô.
Enquanto
você teve só uma dor de cabeça, eu tenho duas maravilhas.
Por
falar nelas, Tatiana e Alícia farão de madrugada comigo o passeio de
aniversário. Eu procuro não ficar falando em voz alta que tenho duas namoradas,
porque minha família é um tanto quadrada e problemática. Vai saber o que diriam
de mim...
E
por falar em família... e por falar em problemática... e por falar em quadrada,
meus tios por parte de pai e meus primos chegaram não muito tempo depois. Ainda
bem! Porque enquanto meu avô fica sozinho aqui em casa, ele não para de vigiar
nossa arrumação e ver se colocamos ordem nas coisas.... É chato.
Minha
tia chegou logo enfiando um presente na minha cara! Ela adora me dar coisas,
principalmente quando o assunto é chantagem emocional. Então eu consigo fácil o
que eu quero. Pedi duas máscaras do Slipknot e, por incrível que pareça, ela
deu mesmo. Eu não estou nem aí se o presente que eu pedi é caro! As pessoas
sempre me os entregam com cara de satisfação, então está tudo certo.
Meus
primos eram outra história. Eles não sabiam dividir, nem mesmo o que era meu
eles queriam dividir comigo. Começaram logo a brigar pelo controle da TV.
Depois que liguei o video game, começaram a brigar com as outras pessoas
que também queriam jogar. Ai.... Mas não tem problema. Minha festa ficou cheia
de gente de repente.
Eu
poderia descrever cada pessoa daqui. Uns são mais ridículos do que outros, mas
cada um tem alguma coisa boa de que se aproveitar. Os tios avós eram sempre
simpáticos, pareciam bons velhinhos, mas tinham que me fazer um monte de
perguntas sobre minha faculdade e falar mal do meu cachorro. Tinha gente que,
secretamente, ainda não se conformava com a minha escolha por Artes. E o
cachorro era desobediente.
Alguns
primos meus riam de mim por causa das minhas estranhezas. Eu sei que já fui
muito antissocial na escola, sei que quebrei a porta do meu quarto num surto de
raiva, sei que já arranquei grama do quintal e matei dois passarinhos e admito
que isso foi errado. Mas não gosto que me olhem com deboche e deem risada de
mim só por causa da minha constante cara de quem comeu e não gostou. Quando
eles estão perto eu nem falo direito e fervo de raiva.
Enfim.
Mas nada é pior que a causadora de metade dos problemas da minha vida. Mãe!
Minha querida mãe briga com todo mundo por minha causa, mas nem percebe que
assim ela me deixa pior ainda. Eu já fui competido pelos meus pais, já quiseram
me tirar deles, outras pessoas já quiseram me criar de outro jeito e eu não
gostei. É trágica minha história, tem muita reclamação, muita mentira e
falsidade. Muita gente reclamando dos meus pais por causa do modo como me
criaram, por causa do que me tornei. Mas deixo que reclamem; logo vão reclamar
no Inferno.
Enfim.
Mas esta é minha festa de aniversário, este imenso bolo com recheio e
cobertura. Bolo insosso, torto, som cobertura derretida e recheio doce demais
para ser gostoso. E já que estamos falando em bolo, chegou a hora de servir
meus cup cakes!!! Meus tão esperados e desejados cup cakes gelados! Quase todo
mundo da festa me aplaudiu por eles. Pude ver no rosto dos parentes mais
próximos o orgulho que eles têm de mim por eu saber fazer este tipo de receita.
Tirei-os
da geladeira e comecei a distribuir, explicando cada um dos sabores direitinho.
E posso admitir firmemente que gostaram de todos! Melhor que preparar a
armadilha, é ver um bicho sendo preso por ela, e o paladar de todos foi
realmente capturado pelos sabores deliciosos das minhas receitas. Dei um
sorriso de orelha a orelha.
Só
depois de uns vinte minutos foi que percebi que minha mãe não tinha comigo o
bolinho dela. Então incentivei:
—
Vamos, mãe, coma. Quero que todos experimentem minhas receitas.
Ela
me olhou com uma cara de desculpa, disse que não gostaria de comer justamente o
cup cake de pimenta.
—
Eu tenho um certo bloqueio para coisas diferentes — ela disse.
—
Mas pelo menos experimente! Você não vai saber se gosta até comer.
E
não é que ela comeu mesmo? Gostou tanto que comeu tudo e ainda me elogiou por
minha habilidade. Foi até engraçado ver como ela fez uma expressão de
cumplicidade ao comer sabendo que eu tinha escondido ali um sabor desconhecido.
Eu gosto quando as pessoas colaboram comigo. Enfim.
Ding
dong! A campainha tocou nesta hora. Mas quem será que chegou atrasado? São
exatamente as duas pessoas que pedi para chegarem às oito e meia, minhas
namoradas, Tatiana e Alícia. Mandei entrar. Nos dirigimos ao meu quarto. Minha
mãe estranhou quando passamos e alguns dos convidados não puderam deixar de
notar a presença de minhas duas belezuras, presentinhos que ganhei do Heavy
Metal.
—
Hélio, eu deixei quatro bolinhos para elas.
—
Obrigada, sogra — a Alícia disse.
Então
fiz uma pose, me certifiquei de que meus primos pau no cu estavam ouvindo e
falei:
—
Calma, mãe. Eu vou dar o bolo delas lá em cima.
Subimos
as escadas, entramos em meu covil... quer dizer, meu quarto, e trancamos a
porta. Alícia já foi se jogando em minha cama. Tatiana, tirou duas luvas
cirúrgicas da bolsa, as vestiu e começou a vasculhar cada centímetro do quarto
para ver se estava tudo limpo e aparentemente normal. Enquanto isso eu me
joguei em cima de Alícia para comemorar. Meti o rosto no meio dos peitões dela.
Conforme
o clima esquentava entre nós dois, Tatiana não conseguia sossegar. Parecia uma
barata tonta pelo quarto.
—
Aí! Eu estou nervosa — ela disse.
—
Relaxa, Tatiana. Não vejo problema nenhum em saberem que minhas minas vieram
curtir meu aniversário comigo. Vem curtir com a gente.
Ela
hesitou.
—
Vem logo! Faz parte do plano!
—
Mas eu estou menstruada.
—
Melhor ainda! Quero ver sangue na cama!
Ela
hesitou de novo, mas juntou-se a mim e à Alícia em minha cama de solteiro. Você
se surpreenderia com o que três pessoas conseguem fazer numa cama tão pequena.
E naquela noite eu fiz mesmo tudo o que eu tinha direito. Até brinquei de
vampiro. Tomei sangue direto da fonte. Minha cara ficou toda borrada.
Depois
tratei de vestir de novo minha roupa bonita, me lavei no banheiro ao nado do
quarto e nos preparamos para descer as escadas de novo. Todos vestimos luvas
cirúrgicas que a Tatiana trazia na bolsa. Alícia tirou de sua bolsa uma eco
bag e guardou nela apenas duas mudas de roupas minhas, e a menor quantidade
possível de objetos pessoais meus. Ah! E é claro que eu quis levar pelo menos
uma das minhas máscaras do Slipknot e o álbum 5: The Grey Chapter para
eu escutar no caminho. Quis vestir a máscara, inclusive.
Uma
hora de sexo deve ter sido o suficiente para esperar.
—
Tatiana, as facas estão escondidas embaixo do colchão — eu disse em voz baixa.
Ela
entregou uma faca para mim e outra para Alícia, que a segurou com insegurança.
Eu peguei o bloqueador de internet, que estava escondido atrás da minha porta,
e o coloquei dentro da eco bag.
Descemos
as escadas e encontramos exatamente o que eu queria. Todos os meus convidados
estavam caídos no chão ou deitados no sofá. Estufei o peito triunfante, sabendo
que aquelas pessoas jamais me atrapalhariam de novo. Meu avô, velho estúpido e
malfazejo, não me incomodaria mais. Minha tia jamais reclamaria dos meus modos
ou tentaria discutir minha criação de novo, como se isso fizesse alguma
diferença no meu caso. Meus primos tiveram o que mereceram pelo bullying
e por todas as suas malditas comparações. E aqueles convidados amigos que não
eram amigos... Eu me aproximei deles apenas para que fossem à minha festa mesmo
e morressem com todos os citados anteriormente. E as pessoas da família que não
me incomodavam? Acabaram fazendo parte da faxina também. Sinto muito, pessoal.
—
Cuidado! — A Tatiana gritou.
Um
imbecil chamado Teles, que eu papariquei na escola e chamei para minha festa só
para que caísse em minha armadilha, ainda estava vivo, apesar de ter a boca
espumando. Ele cambaleou e agarrou Alícia por trás. Ela gritou, assustada, mas
logo depois o esfaqueou na perna. Ele caiu no chão.
—
Vai, Alícia! Dá logo o golpe final! — Eu disse.
Ela
começou a chorar de medo. Então Tatiana foi para cima do Teles e cortou metade
de seu pescoço com um movimento só.
Ouvi
gemidos agonizando. Havia também outra pessoa caída no chão que ainda resistia
e gemia com os olhos vacilantes. Eu me abaixei para falar com ela enquanto
Tatiana andava pela casa com a faca e se certificava de que todos os outros
estavam mesmo mortos.
—
Olá, mãe! Achou gostoso o bolinho que fiz? — Eu adoro falar com a voz cheia de
ironia, algo que pensava que não saia fazer. — Fiz de um sabor especial só para
vocês.
—
Hélio... Por que eu também?...
—
Por que, mãe. Por que será? Você é atrasada demais para seguir comigo. —
Enquanto isso, eu pegava o fraco pulso dela, ao mesmo tempo em que ela tentava
resistir, e o cortava profundamente com minha faca. — Vá viver sua vida tosca
no Inferno.
—
Hélio... Vão te achar — ela disse com a voz fraca e zonza.
—
Agora, mãe, faz o favor de deixar suas digitais nesta faca. — Eu forcei ela a
pegar o cabo da faca e depois fiz um corte longo em meu próprio braço para
deixar meu sangue cair na camiseta branca dela. Ri alto. — O que você acha que
vão pensar quando chegarem aqui. Eu?... Eu não fiz nada.
Levantei-me
e larguei a faca no colo dela, me certificando de que ela não levantaria para
revidar. Neste momento, Tatiana me avisou de que estava tudo pronto.
—
Se lembrou do pote?
—
Está no fundo da última gaveta do gabinete da pia, aquela cheia de panos de
prato.
Ela
pegou o pote de veneno e também forçou minha mãe a colocar suas digitais nele.
Depois deixou o pote sobre no gabinete da pia de novo, numa parte mais
evidente, com o rótulo para frente.
Saímos.
Não
tem ninguém na rua. O ar da noite está muito gostoso e calmo, nem parece que eu
envenenei vinte pessoas. Nesta maravilhosa noite, minha vida recomeça.
Quase
na frente da minha casa, pronto para me ligar caso alguma coisa desse errado,
está meu amigo Murilo. É uma pessoa em quem eu confio muito; o único amigo que
realmente tenho. Ele também é namorado da Alícia. Às vezes eu deixo ele ficar
com a Tatiana também. O cara é tão foda que até o meu traseiro ele já comeu.
Aquele dia foi osso. Ele é o cara que vai dirigir a noite toda para nos levar
para bem longe daqui. Somos jovens cheios de vida e de vingança da vida prontos
para começar uma nova jornada juntos.
Levanto
a máscara para cumprimentá-lo.
—
Pronto para ir, parceiro?
Respondo
com a cabeça. Ele liga o carro e partimos.
Vamos
para um lugar bem longe daqui! Longe de nossos problemas e de nossas malditas
antigas vidas. Longe de todos os nossos fracassos e traumas! Vamos para um
lugar frio. Vai ser foda me esconder da polícia até que a chacina seja
arquivada. A partir de agora, não posso mais usar meu antigo sobrenome de
nascimento. Eu matei a família Rodrigues. De agora em diante, meu nome é Hélio
Santos.



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