Origem Controlada- Cannubis

 



O dia nasceu sem pressa, como se a cidade tivesse desistido de acordar por completo.

O céu era de um cinza lavado, chuva na ilha e a atmosfera se tornava cansada. As casas mesmo desalinhadas na ladeira de paralelepípedos pareciam iguais demais, muros baixos, portões rangendo, plantas encharcadas.

Caleu bate a porta do carro com mais força do que o necessário, como se o som ajudasse a firmar o início do dia. Sentou, ajustou o retrovisor e ficou alguns segundos olhando o próprio reflexo.

No banco do passageiro, papéis se acumulavam, planilhas, números, linhas que não diziam muita coisa fora do lugar certo.

Ele puxou do bolso um papel dobrado, mal cortado nas bordas, e abriu com uma mão só, apoiando o volante com a outra:

arroz

óleo

sabão

carne

Dobrou o papel novamente, e o deixou sobre o painel. O carro respondeu na segunda tentativa, com um ronco curto e cansado. O rádio ligou sozinho, chiado baixo, até que a estática cedeu lugar a uma voz clara demais para aquele horário.

"…e lembre-se, consumir bem também é um ato de consciencia..."

Uma vinheta curta, suave, propositalmente acolhedora.

Engatou a marcha e saiu.

"Já conhece os novos cortes do modelo alimentar ético? Mais do que qualidade, uma escolha responsável. Produção controlada, sem desperdícios, sem sofrimento desnecessário. Porque comer bem também é saber de onde veeeem"

 Ele ouviu sem realmente escutar. O slogan se repetia há meses, atravessando rádios, telas, conversas. Já fazia parte do fundo das coisas como um papel de parede cansado.

"Porque comer bem também é saber de onde veeeem."

A rua passava pelo parabrisa como uma sequrncia de imagens aleatorias: um cachorro parado na calçada olhando o carro passar sem reagir, pessoas encolhidas abrigando-se dos primeiros respingos de chuva.

O trânsito apertou conforme ele se afastava, bem como o conjunto habitacional em que morava ficava consideravelmente para trás sem que ele percebesse.

O açougue ficava na avenida principal de um bairro próximo. No letreiro, letras brancas sobre fundo verde:

Origem Controlada.

A fachada limpa. Vidros amplos, sem manchas, sem cartazes, sem promoções sem letras vermelhas.

Depois do novo código de conduta alimentar, os estabelecimentos não podiam mais contaminar os alimentos nem mesmo com poluição visual.

Ao entrar no açougue, sentiu o ar frio, mas não tinha o cheiro forte de carne crua comum de outros tempos. Era quase neutro. Levemente adocicado, algo que lembrava produtos de limpeza recém aplicados.

Atrás do balcão, os cortes estavam organizados com precisão milimétrica. Nenhuma peça irregular. Nenhum excesso. Nenhum osso exposto.

As etiquetas minimalistas chamaram atenção primeiro.

Jovem: Fibra Longa

Músculo: Maturação Natural

Seleção Prime:  Baixo em gordura

Algumas peças tinham uma coloração levemente irregular, tons que variavam entre o rosado e um vermelho mais fechado, mas sem manchas, sem gordura aparente.

Perfeitas.

Seus olhos voltaram, quase sem querer, para uma peça menor, compacta. Lembrava vagamente um corte antigo. Um nome que já não se usava.

A etiqueta dizia: Lote 17: Origem local

"Esse aqui" disse Caleu, apontando sem encostar.

O homem do outro lado do balcão seguiu o gesto com os olhos, como se já soubesse e sorriu levemente em reconhecimento.

Pegou a peça com cuidado excessivo, quase respeitoso e a acomodou sobre a bancada. A lâmina deslizou com facilidade ajustando o corte com precisão.

Caleu pagou sem conferir o valor.


A chuva havia engrossado quando ele voltou para o carro. As gotas batiam no parabrisas com um ritmo constante, abafando o resto do mundo.

No banco do passageiro, a carne repousava silenciosa.

Então ele dirigiu de volta sem ligar o rádio.


O apartamento parecia menor do que de costume.

O ar abafado. A mobília fria. Apenas um par de sapatos no hall de entrada junto a um tapete do StarWars.

Ele deixou as chaves sobre a mesa, tirou os sapatos e foi direto para a cozinha.

Colocou a sacola sobre a bancada e retirou a peça com cuidado. O plástico aderiu à carne ao ser aberto, soltando um leve ruído úmido.

Aqueceu a frigideira até o ponto certo, testando com a ponta dos dedos acima da superfície e retirando rapidamente ao sentir o calor lamber sua pele de forma agressiva.

Na carne: sal grosso, pimenta moída na hora

um fio de azeite.

A superfície dourava lentamente, criando uma crosta uniforme. Nenhuma contração brusca. A carne não encolhia como as carnes de antigamente, permanecia vibrando suavemente no calor da frigideira.

Transferiu a carne para um prato, deixou descansar enquanto o suco se acumulava ao redor, escorrendo devagar.

Na frigideira ainda quente, Caleu despejou uma colher de manteiga e alguns dentes de alho, fazendo com que a crosta formada na frigideira desgrudasse formando um molho encorpado e brilhante.

Ele desliza a faca na carne, as fibras cedem facilmente revelando um interior rosado e suculento na qual ele despeja o molho de manteiga e alho.

Saboreou a carne quente como quem rezava para uma divindade cultuads dentro de si mesmo.

A textura era exata. Nem macia demais, nem resistente. Cedia no tempo certo, como se soubesse quando deveria se desfazer na boca.

O calor desceu pela garganta e se espalhou pelo peito, ocupando um espaço que ele não sabia que estava vazio.

O prato ainda estava sobre a pia quando o celular vibrou.

Uma única notificação.

Caleu limpou os dedos num pano de prato já úmido e pegou o aparelho. A tela branca iluminou seu rosto por um instante.

Lote 17: divergência.

Verificação presencial obrigatória.

Lote 17. Olhou de relance para o prato onde restava apenas o rastro do molho, já começando a engrossar no frio.

Pegou as chaves e saiu sem lavar as louças.


A chuva tinha diminuído, mas o asfalto ainda refletia tudo como um espelho sujo.

O endereço não ficava exatamente na cidade.

Conforme avançava, as ruas foram afinando até virarem estrada. Um caminho de barro vermelho batido, marcado por pneus largos  como se só um tipo de veículo tivesse permissão de passar por ali.

O portão surgiu sem aviso. Alto. Metálico.

O mesmo letreiro dos muitos açougues espalhados pela cidade: Origem controlada.

O galpão era maior do que parecia pelo lado de fora. A estrutura se estendia para baixo, não para os lados, assim como os muitos viveiros de gado na qual já visitara, ele percebeu isso assim que entrou.

O ar era frio porém controlado, sem cheiro de terra, sem cheiro de animal.

Uma mulher o aguardava. Usava macacão verde e as letras brancas com o mesmo nome do letreiro na altura do peito.

"A divergência está no setor de maturação",  disse ela sem cumprimento.

Pelos anos de experiência, a palavra divergência quase sempre estava relacionada à contaminação. Algo relativamente frequente e, na maioria dos casos, simples de resolver: descarte, limpeza, substituição.

Procedimento.

Mas, após a implantação do novo modelo alimentar, divergências haviam se tornado raras.

E, quando surgiam, não eram tratadas por fiscais comuns. Sempre vinham acompanhadas de protocolos específicos.

E de gente que não fazia perguntas.

Ela não esperou resposta. Virou-se e começou a andar.

O som dos passos parecia absorvido pelo chão, como se o lugar tivesse sido projetado para não registrar presença.

Por todos os corredores que passaram, as portas eram idênticas, diferenciadas apenas por números pequenos demais e o número 17 aparecia mais do que deveria.

Ela parou diante de uma porta maior.

SETOR DE MATURAÇÃO: LOTE 17 São Luís/Ma.

A mulher encostou a mão no painel e a trava cedeu com um clique seco. O ar ali dentro era diferente. Não apenas frio, mas denso.

Caleu entrou e, por um instante, não entendeu o que estava vendo. A organização era familiar, cochos de criação: fileiras precisas, espaçamento regular.

Bastou apenas olhar para as estruturas acima dos cochos para perceber.

Cápsulas. Dentro delas, corpos. Humanos.

Suspensos, mantidos por suportes finos que atravessavam a pele sem deixar marca visível.

O olhar buscou lógica e encontrou nas etiquetas presas ao vidro o mesmo vocabulário do açougue.

Fibra longa: baixo teor lipídico

Músculo: Maturação Natural (Em andamento)

Jovem: Pronto para extração.

As palavras estavam intactas. O significado, não.

Andaram mais alguns metros pelo corredor, e a disposição das cápsulas começou a mudar.

As estruturas verticais foram ficando mais espaçadas, até desaparecerem por completo.

O espaço se abriu.

E então vieram as baias.

O ambiente era amplo, dividido por grades metálicas que iam do chão até pouco acima da altura de um homem. Não eram improvisadas. Eram projetadas. Limpas

Dentro delas, pessoas: Homens em um setor.

Mulheres em outro.

Mais ao fundo, separados por uma divisão ainda mais rígida, crianças.

A respiração coletiva passara a ditar os batimentos cardíacos de Caleu. O arrastar leve de pés no chão liso. O toque ocasional de pele contra metal.

Os olhos percorreram o espaço tentando encaixar aquilo em alguma categoria conhecida e falhando miseravelmente.

Os corpos eram saudáveis. Bem alimentados. Sem marcas de violência aparente. A pele limpa, sem feridas.

Os movimentos eram funcionais.

Respostas simples a estímulos imediatos. Um se afastava quando outro se aproximava. Um sentava quando havia espaço. Outro levantava sem motivo claro. Mas nenhuma interação.

Uma das mulheres estava próxima a grade.

Os dedos passavam pelo metal de forma repetitiva, lenta, como se testassem a textura pela primeira vez. Ou pela milésima, indiferente.

Os olhos dela cruzaram com os de Caleu.

Nenhuma surpresa esboçada, nenhum pedido. Nenhum sentimento.

No setor das crianças, o desconforto era ainda maior.

Algumas sentadas no chão, outras de pé, apoiadas nas grades. Movimentos menos firmes, menos previsíveis.

Uma delas batia a mão aberta contra o metal.

"Eles sentem?" Caleu perguntou, sem tirar os olhos.

A pergunta saiu mais baixa do que ele esperava.

"Respostas fisiológicas simples são preservadas"

Caleu seguiu a mulher, mas o corpo não acompanhava com a mesma precisão de antes. Havia um atraso mínimo entre decisão e movimento, como se algo nele tivesse ficado para trás, preso nas baias.

Pararam diante de outra porta. Menor que a anterior: Setor de acompanhamento.

 

Então, mais adiante uma única baia. Menor que as demais. E dentro dela uma mulher, sentada no chão com as costas apoiadas na parede.

Os olhos desceram pelo corpo dela, avaliando sem querer avaliar. Pele clara, seios fartos, corpo quadris largos.

Então ele viu. Primeiro como um erro no movimento... algo se ajustando nos braços dela, pequeno demais, ativo demais para caber em qualquer lógica do lugar. Havia intenção naquele gesto, um encaixe que fazia o corpo dela reagir, apertando, protegendo uma criança.

A pele da criança contrastava de imediato com tudo ao redor, um tom escuro, profundo, impossível de ignorar naquele ambiente onde cada traço era calculado, previsto, repetido.

 Cada corpo cultivado seguia uma linha rígida de seleção, cruzamentos controlados, padronização estética e biológica.

"Não faz parte do lote”, ela disse, por fim, com a mesma neutralidade usada para descrever contaminações.

O estômago revirou, um reflexo tardio, como se só agora o corpo estivesse entendendo antes da mente.

 Ele piscou algumas vezes, tentando limpar a visão, mas nada ali mudava. As cápsulas. As baias. As pessoas. As crianças.

 A criança.

Seus dedos tremeram de leve antes que ele os escondesse dentro dos bolsos da jaqueta. A mandíbula travou, não por controle, mas por contenção.

 Qualquer palavra dita no tom errado poderia colocá-lo numa posição muito ruim afinal o novo modelo alimentar havia sido criado, implementado e fiscalizado pelo governo.

Ele forçou o olhar a voltar para a cena, mesmo que tudo nele pedisse para sair correndo. Seu senso de análise deveria prevalecer. Manter-se técnico. Reduzir aquilo ao que podia ser explicado.

Os olhos voltaram para a criança, e dessa vez não havia como esconder o que aquilo significava de verdade.

Se era dali, não fora criado nos parâmetros comuns para aquele lugar.

Se não era dali, alguém havia invadido o sistema de segurança.

E qualquer uma das duas opções era pior do que a outra.

Caleu engoliu seco, sentindo o gosto metálico subir pela garganta. Quando falou, a voz saiu baixa, mas estável o suficiente para não denunciá-lo:

“Biologicamente… pode acontecer.”

Silêncio.

“Mas não aqui.”

A frase ficou suspensa no ar, como algo que não deveria ter sido dito em voz alta.

A mulher ao lado dele não respondeu de imediato. Apenas o observou por um segundo a mais do que o necessário, avaliando. Então voltou os olhos para a baia, como se nada tivesse acontecido.

Caleu passou a língua pelos lábios, sentindo a boca seca. O olhar insistia em voltar para a criança, mas ele forçou a atenção para o que podia ser controlado.

Enfim, procedimento.

Mas se errasse o tom, virava um problrma a parte.

Se acertasse demais tornaria-se parte de um problema ainda maior.

“A Divergência deve ser classificada como: Incompatível com o padrão do lote”, começou, a voz ganhando uma firmeza forçada. “Possível ocorrência de material genético externo ao banco de cultivo.”

Gado sendo tratado como gado.

O olhar desceu mais uma vez para a criança. Pequena. Respirando num ritmo próprio.

A mulher ao lado dele assentiu levemente, como se estivesse apenas aguardando essa conclusão específica.

“Indício de quebra de protocolo em ambiente controlado. Recomendação?"

Aquilo mudava tudo pois a última palavra seria dele. A recomendação errada seria na verdade uma sentença, para a criança que existia sem autorização ou para ele próprio.

"Isolamento contínuo do elemento divergente.”  A pausa veio antes da parte mais delicada. “E rastreamento completo de quem tem acesso ao lote.”

Aquilo tudo não era exatamente novo, pelo menos não do jeito que deveria ser.

Havia registros, não oficiais, de desvios nos setores de cultivo. Sempre ocorrências tratadas como ruído operacional: contenção, ajuste, controle.

Nunca se falava em origem, apenas em correção imediata e abafamento para a mídia.

Os corpos dos viveiros eram constantemente acessados. Homens e mulheres violados dia e noite, por funcionários da empresa e até mesmo por terceiros que invadiam as baias nos dias de sol quando a safra era exposta ao ar livre.

Mesmo do lado de fora do galpão era possível ouvir os gritos das mulheres mais jovens sendo brutalmente estupradas.

Isso não era dito, mas também não era negado por quem fazia parte dr que sustentava o sistema sem aparecer nos relatórios.

A diferença, agora, estava nos braços dela, o erro tinha evidência.

Ele não esperou resposta.

A mulher já havia voltado os olhos para a baia, como se o assunto estivesse encerrado no exato momento em que ganhou um nome técnico.

Classificado.

Caleu assentiu uma única vez, automático. O corpo ainda obedecia antes que a mente pudesse perder o controle.

Os passos soaram estranhos agora. Não pelo som, mas pelo esforço necessário para mantê-los regulares. Cada movimento exigia controle absoluto para que ninguém percebesse que ele estava totalmente devastado.

O corredor pareceu mais longo na volta. As portas idênticas, os números pequenos, tudo se repetia como se quisessem enlouquecer qualquer um que tivesse acesso aquele local, fazendo com que o espaço não tivesse qualquer noção de direção.

Quando atravessou a porta principal, o ar externo o atingiu de forma abrupta.

Ele só percebeu que estava respirando rápido quando precisou parar ao lado do carro.

As mãos tremiam enquanto procurava as chaves no bolso, deixando-as cair antes de conseguir segurá-las.

O silêncio dentro do carro não era o mesmo de antes. Suass mãos permaneceram no volante por alguns segundos longos demais.

No painel do carro, a lista de compras amassada e uma única palavra em evidência: Carne.

A palavra rodopia em sua mente, não como um conceito mas como uma memória que traz textura, perfume, calor.

O prato ainda sujo na pia.

O pensamento tentava se organizar, mas escorregava. Cada ideia vinha acompanhada de outra, pior, mais urgente.

Sair do país. Portugal? Avisar a família. Espanha? Juntar as economias. China? Parar numa conveniência e comprar um maço de cigarros mesmo sem nunca ter fumado na vida.

Sem perceber, ligou o rádio.

“…com resultados positivos nas primeiras regiões, o modelo alimentar ético avança em ritmo acelerado…”

Ele manteve os olhos na estrada, mas o corpo enrijeceu.

“…autoridades confirmam que, a partir desta semana, a implementação se torna obrigatória em todo o território nacional…”

O mundo pareceu desacelerar ao redor dele.

“…com adesão internacional imediata, o protocolo também passa a ser adotado por países parceiros, consolidando um novo padrão global de consumo…”

Global.

“…garantindo segurança alimentar, controle de origem e eliminação definitiva de práticas irregulares…”

Caleu soltou uma risada curta.

Os dedos apertaram o volante até os nós ficarem brancos.

A estrada seguia à frente, perfeitamente normal.


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