Um Pouco de Ervas Finas - Tauã Lima Verdan Rangel



— É verdade que todos confirmaram presença no jantar de hoje? —, indaga-me uma das auxiliares da cozinha da grande mansão dos Albuquerque.

— Parece-me que sim. Contudo, estou trabalhando nesta casa há mais de quarenta anos como cozinheira e só acredito quando ver toda a família reunida na sala de jantar —, respondo de maneira automática, ao olhar pela janela em direção ao jardim dos fundos.

O relógio marcava pouco mais de dezesseis horas e uma lufada de brisa de verão soprava por uma das janelas da cozinha. Apesar de leve, o vento é ameno e traz um pouco de frescor ao ambiente. No jardim dos fundos, consigo avistar os pés de manacá começando a florada e as rosas vermelhas desabrochadas. Nunca entendi muito bem a combinação que D. Olga fazia naquele jardim. Flores tão delicadas, com aromas discretos, com outras tão efusivas e cheiros intensos. Era uma mistura peculiar...

Do lado de dentro, a cozinha funcionava em plena produção, com as auxiliares a seguir o cardápio apresentado pela matriarca da cozinha. Com as fervuras que se elevavam, os cheiros de tempero ganhavam maior intensidade e inundavam a extensão de todo o local. Os aromas cítricos das frutas combinavam com as ervas finas que eram preparadas para pincelar as carnes do grande banquete que se avizinhava.  Havia, em meio aquele caos, uma ordem delicada que mesclava cheiros, sabores, texturas e lembranças.

— Eu acho estranha essa família. Parece que as pessoas se odeiam e evitam ao máximo estar perto do Dr. Paulo Henrique —, disparou minha jovem auxiliar de cozinha.

— Não é aparência, menina! É a mais pura verdade. Você está aqui há pouco mais de dois meses e não conheceu a real índole do Dr. Paulo Henrique. Este homem octogenário, de fala mansa, gestos lentos e um olhar luminoso em nada, absolutamente nada, faz lembrá-lo antes do câncer. Como te disse, estou aqui há mais de quarenta anos e já o vi fazendo de um tudo, infernizando a vida da esposa, dos filhos, das noras e dos empregados... —, eu não conseguia sequer disfarçar em minha voz a mistura de ódio e de dor aquele homem me causara em tantos anos.

— E como ele era antes? —, indaga-me a jovem curiosa.

Antes que eu pudesse disparar qualquer outra frase, D. Olga, a esposa, adentra pela cozinha e vem em minha direção. Retenho-me e faço um sinal com os olhos, a fim de que a jovem cesse a conversa. Como sempre, o rosto pesado em maquiagem, o cabelo milimetricamente preso com uma joia e um sorriso padrão de uma boa esposa, submissa, sem força para resistir e que mantém seus interesses na grande fortuna do patriarca dos Albuquerque. Como de costume, coloco uma pequena porção do que eu estou preparando para o jantar para que ela possa provar e dar sua opinião a respeito do tempero, do sal ou mesmo da textura.

D. Olga, com calma, prova cada um dos pratos que estamos preparando para o jantar. Hoje, porém, há algo de estranho em seu olhar. Parece distante e evasivo. Poucas vezes, eu a vi naquele estado. Salvo engano, a última vez foi há uns dez anos, quando o Dr. Paulo Henrique expulsou um dos filhos da casa, depois de descobrir que o jovem estava se envolvendo com o motorista da mansão, Carlos, e que era meu filho. Foi um dia caótico e, poucas semanas depois, o jovem já estava casado com uma alpinista social, sedenta pelo sobrenome da família e do dinheiro que estava atrelado a ele.

Quanto ao funcionário, melhor dizendo, quanto ao meu filho, foi mandado para trabalhar em uma fazendo no interior do estado do Mato Grosso e, suspeitamente, foi encontrado morto, uns seis meses após. Naquela família, havia tanta coisa estranha, fora do lugar, aparências e interesses que conviviam com o ressentimento e o ódio.

— Susana? —, chama-me D. Olga.

— Pois não, senhora. Como posso ser útil? —, respondo com a cordialidade que a minha função exige.

— Há quanto tempo você trabalha conosco?

— Como senhora?

— Há quanto tempo você é cozinheira em nossa casa?

— D. Olga, salvo engano, esse ano eu faço quarenta e um anos de serviços prestados à família.

— Sabe, Susana, eu nunca pude dizer como tenho gratidão por você estar conosco por todo este tempo... —, ela me disse em um tom que mesclava um choro contido e um cansaço descomunal.

— Imagina, D. Olga! Não há o que agradecer. Na verdade, eu sou muito grata pela oportunidade que o Dr. Paulo Henrique e a senhora me deram de criar meus filhos na mansão e tê-los dado estudo —, ainda que a minha boca tentasse falar palavras amenas, em meu interior, havia um ódio crescente, sobretudo pelo sofrimento que aquele homem me causou.

— Quando uma mãe perde um filho, todas as mães acabam perdendo um pedacinho delas também... —, disse-me D. Olga, pousando sua mão sobre o meu ombro e parabenizando-me pelo excelente tempero.

A matriarca da família saiu da cozinha com passos firmes e em direção à sala de jantar. Era estranho, para mim, ver aquela cena, pois, mesmo prestando serviços à família, por mais de quarenta anos, nunca tinha visto um comportamento similar de D. Olga. Para nós, os funcionários mais antigos, ela parecia viver em uma redoma de vidro, isolada da realidade do mundo, em constante anestesia. Talvez, fosse este o mecanismo que ela acabou desenvolvendo para conseguir, mesmo que fosse quase impossível de racionalizar, viver tantos anos ao lado daquele homem.

Como uma estátua impassível, D. Olga se acostumou a toda sorte de ofensas e humilhações que o marido era capaz de provocar. Mulherengo, agressivo e tóxico, esses eram apenas alguns dos predicados que poderiam descrever o tão famoso Dr. Pedro Henrique. Nos meus quarenta anos de trabalho na mansão, já tinha visto e ouvido de tudo, desde as amantes que eram colocadas como secretárias particulares da própria esposa até mesmo as surras a que D. Olga foi submetida durante o período em que o homem tinha força e vigor.

— Susana, podemos colocar as carnes para assar? —, indaga-me uma das minhas auxiliares, trazendo-me de volta para aquela realidade.

— Ainda não. São pouco mais de dezoito horas. Vamos deixar as carnes marinando um pouco mais na mistura de vinha e de temperos. Quando o relógio marcar dezenove horas, colocamos todas as carnes para assar. O cheiro da carne vai inundar o salão do jantar, o que vai despertar o apetite dos convidados —, respondo de modo firme. Os auxiliares mais novos não eram sequer capazes de imaginar a origem daqueles cortes de carne... o gosto similar à carne de porco conseguia ocultar bem o apetite estranho e extravagante que a família possuía...

Continuo com os meus pensamentos absorvidos pelo fato de o convite ter sido feito a todos os parentes. Em plena véspera de Natal, pensava que era uma decisão questionável reunir, na mansão Albuquerque, todos os filhos, as noras e os netos, além dos funcionários. O convite era claro e foi, como era de esperar, recheado de interesses, pois todos, em uma uníssona voz, torciam para que o câncer tivesse consumido o patriarca, mas, ainda assim, nenhum dos membros teve seus pedidos acolhidos. O homem, mesmo com a saúde debilitada, se mantinha racional...

— D. Susana, devemos colocar o espumante para refrescar? —, indaga-me Lucas, um dos garçons. O jovem deveria ter pouco mais de vinte e cinco anos e, de uma maneira saudosa, fazia-me lembrar do meu filho Carlos e seus belos olhos verdes.

— Não, Lucas! O espumante não deve ser colocado antes das vinte horas, caso contrário as garrafas ficarão suadas e D. Olga não gosta. É arriscado alguma delas escorregar e quebrar. Vamos tentar, mesmo que isso seja impossível, manter a casa em ordem. Já, por si só, a noite promete um caos muito grande... —, disparo em tom de advertência, enquanto esboço um sorriso protocolar.

 

***

 

Por volta das vinte horas, a grande porta do salão principal é aberta. Uma das empregadas, em um passo rápido, entra pela cozinha e cochicha que o mais novo dos filhos chegou. O caçula sempre foi o pior dos três irmãos, com sua ambição desmedida, foi educado em um colégio interno no exterior e só pensava em dinheiro. De certo modo, achava que era aquele que mais se parecia com o pai, faltava caráter, escrúpulos e o mínimo de dignidade. Mesmo que o relacionamento com Dr. Pedro Henrique fosse tenebroso, achava que era o mais próximo do pai e, de fato, o preferido.

— Susana, o mais novo dos filhos está na sala principal, com a esposa e com os netos. O que devemos fazer? —, indaga-me Catarina, uma das auxiliares da cozinha.

— Lucas, Andréa e Catarina, comecem a preparar a mesa de frutas, canapés e entradas. O jantar será servido, de acordo com D. Olga, por volta das vinte e duas horas, vamos manter o salão da recepção abastecido.  Sobre as bebidas, sirvam os sucos e peçam o outro garçom para preparar algo mais leve, não devemos distribuir álcool ainda. A carne já marinou o suficiente no preparado de ervas finas...

 

***

 

Em menos de meia hora, a porta principal foi aberta por duas vezes e eu presumi que eram os dois outros irmãos que haviam chegado. Com cuidado, fui em direção à porta que dava em direção ao salão da percepção e pude ver, mesmo por um relance, o filho que tinha se apaixonado pelo meu Carlos. Ele ainda tinha o olhar triste, perdido e parecia extremamente infeliz com a esposa. Mesmo que, por um breve segundo, ele conseguiu me avistar e esboçou um sorriso tímido. Havia, naquele homem, uma mistura de medo do pai e uma culpa imensa por não ter vivido o amor que tanto ambicionara.

Se Carlos estivesse vivo, ela estaria com trinta e três anos. Tenho certeza que seria um homem extremamente bonito, teria concluído a faculdade de Direito, que cursava com tanto empenho, e seria feliz. Por vezes, eu me pego pensando que, se não houvesse a intervenção de Dr. Pedro Henrique, eles teriam conseguido ser felizes. D. Olga, mesmo que não fosse uma apoiadora explícita, simpatizava com meu Carlos e foi a pessoa que, em segredo pagava os estudos dele e de todos meus outros filhos. Uma lágrima solitária rola pelo meu rosto, mas não tenho tempo para sentimentalismo... há um banquete para finalizar e, como de costume, sei que eles esperam, com ansiedade, o prato principal a ser servido: um assado de carne macia e jovem... algumas coisas precisamos levar para o túmulo, depois de conhecermos a podridão que há nos bastidores de famílias tão desfuncionais e ricas, como os Albuquerque...

 

***

 

O relógio marca pouco mais de vinte horas e quarenta e cinco minutos, quando D. Olga, com passos mais acelerados, retoma ao interior da cozinha. A respiração parece ofegante e os olhos vidrados. Depois de quarenta anos de convivência, eu conseguia discernir que havia alguma coisa estranha no ar, parece que aquela mulher, enfim, tinha perdido a feição impassível que adotara em tantos anos de casamento.

— Susana?

— Pois não, senhora.

— O cheiro do banquete está delicioso —, a voz trêmula denunciava que ela estava desconfortável e receosa com tudo o que poderia acontecer.

— A senhora está bem?

— Estou um pouco emocionada, Susana. Afinal, você, melhor do que todos os demais, sabe quantos anos não conseguimos reunir toda a família.

— É verdade, senhora. Já faz muito tempo...

 — Tenha certeza de que eu sinto muito —, ela me disse, enquanto uma lágrima rolava pelo rosto e ela secada rapidamente.

— Senhora, sente pelo que?

— Era para o Carlinhos está aqui conosco. Tenho certeza de que seu filho teria feito o meu muito feliz. Ele não seria vítima daquela esposa gananciosa, de um casamento de fachada nem uma marionete dos desejos do pai. Infelizmente, Carlos foi mais uma vítima do Pedro! Eu peço a Deus que aquele maldito sofra muito antes de morrer...

Em quarenta anos servindo a família Albuquerque, foi a primeira vez que vi D. Olga falar daquela forma. A voz estava pesada e as mãos geladas, mas havia uma determinação estranha em seus olhos. A feição estável e impassível já não existia no semblante daquela mulher.

— D. Olga, não fale isso. Alguém pode ouvir e não queremos que ninguém pense algo ruim da senhora —, disparei, enquanto olhava no em torno, receando que algum dos filhos, das noras ou dos netos pudesse ouvir aquela conversa.

— A comida, tenho plena convicção, está deliciosa, Susana! Depois de tantos anos casada com aquele crápula, comecei a apreciar o gosto da carne que é servida nestes eventos e, mesmo que eu pense, vez por outra, que há um lugar no inferno para toda a minha família, não posso deixar de dizer que o seu preparo de temperos e ervas finais consegue disfarçar muito bem qualquer dúvida sobre a origem da carne! Peça aos garçons que comecem a distribuir as taças de espumante. Teremos uma noite muito longa, regada a espumante e doses de ressentimento... —, ela disparou a mim, enquanto se afastava em direção à escadaria que dava acesso ao segundo andar da mansão.

Fitei D. Olga se retirar! De fato, eu pensava que havia um lugar especialmente reservado no inferno para todos eles... o cheiro do assado começava a preencher minhas narinas... de fato, um pouco de ervas finas era capaz de disfarçar qualquer coisa, ainda que a carne fosse de pessoas simples e que caíam na teia perigosa que os Albuquerque teciam para manter o extravagante hábito...

 

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